Cultura
Viva Maria visita a memória e a poesia de Cora Coralina
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Oi, oi, gente amiga da poesia e dos doces sabores da vida. Nosso programa de hoje tem cheiro de fruta cristalizada, gosto de infância e um punhado de versos nas mãos. E isso porque hoje, 20 de agosto, é o dia da gente se sentir em festa para celebrar o nascimento de uma mulher que viveu todas as vidas em uma única existência: Cora Coralina, a doceira Aninha que um dia se transformou em poeta e que hoje estaria fazendo 137 anos.

Cora fez da cozinha um laboratório de alquimia, das mãos uma ferramenta de criação e da palavra o ingrediente maior de sua vida. E o calendário de hoje parece até que foi feito sob medida para ela, porque hoje é Dia do Vizinho, Dia do Cozinheiro e é aniversário de Cora Coralina. Cora dizia que o vizinho era o parente mais próximo e, cozinheira de mão cheia, fazia doces que, segundo ela própria, eram ainda mais importantes do que seus versos.
E é para essa mulher de mãos doceiras e alma inquieta que o nosso Viva Maria abre hoje o seu baú de memórias. Cora Coragem, Cora Coração, Cora Coralina: uma mulher que nos ensina que nunca é tarde para transformarmos a vida em poesia.
Perfil: Em 20 de agosto de 1889, nascia na cidade de Goiás Anna Lins de Guimarães Peixoto Bretas, a poetisa famosa pelos doces gostosos que sabia fazer como poucos. Além de farinha de trigo e açúcar, havia outro ingrediente com o qual trabalhava muito bem: a palavra.
Apesar de só ter frequentado a escola primária, a doce poetisa moldava os versos com a facilidade e simplicidade com as quais dava forma aos doces cristalizados. Contudo, demorou sete décadas para publicar seus quitutes literários. É, mas a espera valeu! Aos 75 anos, deixou de ser a doceira Aninha para se tornar a poeta Cora Coralina.
“Alguns há de definir a vida como um mar de ondas violentas. O riso é a minha definição da vida.”
Quem revelou toda a doçura de Cora para o Brasil e o mundo foi o poeta Carlos Drummond de Andrade. Quando Cora tinha 90 anos, recebeu de Drummond uma carta com os maiores elogios. Disse o poeta:
“Aninha hoje não nos pertence, é patrimônio de todos nós que nascemos no Brasil e amamos a poesia.”
E em abril de 1985, Cora Coralina morreu, mas não sem antes publicar sete livros: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, Meu Livro de Cordel, Estórias da Casa Velha da Ponte, O Tesouro da Casa Velha, Vintém de Cobre e dois livros infantis, Meninos Verdes e A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu. Livros que haverão de habitar para todo sempre a cidade de Goiás, que Cora chamava amorosamente de “minha cidade”. Em verso e prosa, dizia: “Eu sou amorosa de tuas ruas estreitas, curtas, indecisas, entrando e saindo uma das outras. Eu sou a menina feia da Ponte da Lapa, eu sou a Aninha.”
“Ah, mas não basta só a imortalidade simbólica, não. Precisa é aquela de fato, não é? Todos os órgãos, todas as glândulas, todos os músculos e, sobretudo, precisa o equilíbrio da mente.”
E agora vamos voltar no tempo para acompanhar uma visita muito especial à Casa-Museu de Cora Coralina na cidade de Goiás Velho. Foi em 2010 que o nosso programa esteve por lá na companhia da poeta de Xinguara, Kênia Silva, nossa Maria Quarquê, e também com a nossa querida Dra. Lívia Martins, que tem os pés plantados pelas beiras de Goiás Velho e conhece de perto os caminhos de Cora. Portanto, cola aí o ouvido no rádio e vamos juntas entrar na casa de Cora Coralina. E quem nos guia por essa casa, por seus objetos, suas lembranças e sua trajetória é uma Maria que conhece a história de Cora como a palma de sua mão. Vamos ouvir?
Cora Coralina nasceu nesta casa em 20 de agosto de 1889. Aqui Cora passou toda a infância. Em 1911 ela foi embora para São Paulo e em 1925 ela se casa com um advogado mineiro, tendo seis filhos, 15 netos e 30 bisnetos. Mora na cidade de Avaré, Jaboticabal, Andradina, Penápolis e na própria capital paulista.
Cora fica viúva em 1934, volta para a cidade de Goiás, para esta mesma casa, em 1956. Dando início à atividade doceira, que dura por mais 14 anos. Era nesses tachos que Cora fazia os doces. Quando ela volta de São Paulo e inicia a atividade doceira, ela cria, no dia 20 de agosto — data do aniversário dela —, o Dia do Vizinho e o Dia do Cozinheiro.
Dia do Vizinho porque ela falava que o vizinho é o parente mais próximo nosso, e Dia do Cozinheiro é a pessoa que prepara a nossa mesa. Aqui na cidade de Goiás é comemorado o dia 20 de agosto. Cora faleceu em 10 de abril de 85, com 95 anos, em Goiânia. Pode olhar à vontade.
Eu queria saber só quando ela começou a fazer poema reconhecido.
Ela começou a escrever com 14 anos, agora publicar só com 75 anos o primeiro livro, que é o Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais.
E você, Kênia Silva, o que você achou dessa história? O que você está achando desses tachos maravilhosos de cobre, coisa linda, né?
Olha, é muito lindo. Eu conhecia a história de Cora, né, sou apaixonada pela história dela. É assim um prazer que não dá para definir estar aqui dentro da casa, vendo essas coisas que a gente viu pela televisão, né, tá vendo de perto. É uma pena que não dá para fotografar para levar pelo menos isso para mostrar para as pessoas lá e sentir um pouquinho do que que é isso aqui.
Mas também você vai levando nos olhos e no coração, que essa é a lembrança maior, que em tempo não haverá de esmaecer, né? E eu acho bom também que a gente guarde o privilégio de ver todas essas coisas assim de perto, né, a partir desse contato com Goiás, com essa casa. Vamos lá, a nossa querida Lívia Martins me chama para a leitura de um trecho do poema. Pode ler você, minha linda.
“Minhas mãos doceiras, jamais ociosas, fecundas, imensas e ocupadas. Mãos laboriosas, abertas sempre para dar, ajudar, unir e abençoar.”
É do livro Meu Livro de Cordel, Cora Coralina. Olha ela fazendo aqueles doces maravilhosos. Vocês não vendem mais os doces? Ah, que pecado. E ela dizia: “Não sou uma ex-doceira, sou uma doceira e considero melhores os meus doces do que os meus versos. Sou poeta por acaso e doceira por convicção e necessidade.”
E aí a Lívia me aponta mais um: “Eu estava nos meus doces, eu me punha nos meus doces, imprimia os tons da minha personalidade nos meus doces. O meu prazer ia desde o começo da manipulação da fruta até a embalagem.”
Mas é até o que a Dra. Lívia Martins faz com a babosa, né, amiga? Não comparando…
Pois é. (risos) Eu achei tão lindo isso quando ela fala de imprimir o seu jeito de ser, a sua personalidade naquele alimento que você prepara.
É, nos seus doces, né? E é isso que a gente deve fazer, porque cozinhar é uma alquimia, é o maior gesto de amor. Maior do que esse gesto, só o de contar história para criança, né? Que eu acho que também é uma das coisas mais importantes.
Com 83 anos Cora cai desta calçada e quebra o fêmur direito. Passa a usar muletas e usa até o último dia de vida. Essa imagem que temos da Cora, ela sentada lendo, declamando, recebendo os turistas nessa sala que era chamada de varanda — porque hoje varanda para nós é a parte de fora, mas antes era interna —, e era aqui que ela recebia os turistas, sentada nessa poltroninha.
E os turistas já vinham mais para conhecer a arquitetura da casa ou já vinham procurá-la por ser ou por saber do grande valor literário revelado por Carlos Drummond de Andrade?
Primeiramente vinham por causa dos doces. Depois, com um determinado tempo, pelo valor literário dela.
Qual era o doce mais famoso de Cora?
Os doces que ela fazia eram de frutas cristalizadas: mamão, laranja, né, figo. Para ela comer, ela falava que gostava do de banana.
Doce de banana! Inspiração pra gente ler hoje e sempre a poesia da eterna Cora Coralina.
Cultura
Mostra Outros Cinemas reúne produçoes de dez estados do Brasil
Com programação totalmente gratuita, que celebra a produção audiovisual brasileira, começa nesta quinta-feira (15), em Fortaleza, Ceará, a 10ª Mostra Outros Cinemas. Todas as sessões acontecerão no Cinema do Dragão, que fica dentro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na Praia de Iracema.

Ao todo, serão exibidas, até o próximo domingo (18), 15 produções representando 10 estados das regiões Nordeste, Norte, Sudeste e Sul do país. Os filmes da mostra competitiva serão exibidos sexta (16) e sábado (17), a partir das 19h, e no domingo, a partir das 16h. O Júri da Crítica, formado por membros da Associação Cearense de Críticos de Cinema, irá escolher o melhor curta-metragem brasileiro da seleção principal.
Um dos destaques da mostra é a homenagem ao cineasta Hermano Penna. A abertura nesta quinta, às 19h, será com a exibição de cópia restaurada do clássico Sargento Getúlio, lançado originalmente em 1983 e que tem a frente do seu elenco os atores Lima Duarte e Fernando Bezerra.
Outra obra restaurada que será exibida no encerramento do evento, no domingo, é o longa cearense O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, de Rosemberg Cariry. A sessão será às 19h. O documentário de 1986 é considerado um dos mais importantes do gênero no cenário audiovisual brasileiro. O filme resgata a história da comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, liderada pelo beato José Lourenço, no interior do Ceará.
A programação completa já está disponível no instagram @mostraoutroscinemas.
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