Polícia
PC indicia 5 da mesma família por esquema de fraudes em concursos em municípios de MT
Polícia
A Polícia Civil de Mato Grosso concluiu, nesta segunda-feira (3), o inquérito policial que identificou a atuação coordenada de um grupo empresarial familiar em um esquema de fraudes em concursos públicos realizados em diferentes municípios de Mato Grosso.
No relatório final da investigação, conduzida pela Delegacia de Ribeirão Cascalheira, cinco pessoas da mesma família foram indiciadas pelos crimes de frustração do caráter competitivo da licitação, fraude em licitação e contrato, falsidade ideológica, fraude em certame de interesse público e associação criminosa.
As apurações iniciaram em 2024, após requisição do Ministério Público, diante de notícia de possível favorecimento de candidatos no Concurso Público nº 01/2024, da Prefeitura de Ribeirão Cascalheira.
No decorrer da investigação, foi possível constatar que os fatos não estavam restritos ao município e poderiam integrar uma estrutura mais ampla, com utilização alternada de empresas em nome dos investigados, credenciais de terceiros, documentos compartilhados e pessoas jurídicas formalmente independentes.
Ata antecipada e concorrência simulada
Um dos elementos de prova encontrados na investigação do concurso de Ribeirão Cascalheira foi um arquivo, encaminhado à responsável pelo setor de licitações da prefeitura, contendo a proposta mesmo antes de ela ser recebida no setor de licitações, quatro horas antes do encerramento do prazo para apresentação das propostas.
O documento já continha nomes de empresas, CNPJs, horários de recebimento e valores que, posteriormente, apareceram na ata oficial de forma idêntica. Cinco minutos depois do recebimento do arquivo, a servidora municipal informou que, até aquele momento, apenas uma proposta havia sido apresentada. A abertura formal dos envelopes, por sua vez, estava registrada para ocorrer cinco dias depois.
A investigação apontou que a correspondência entre o modelo antecipado e a ata publicada evidenciam que a suposta competição já estava estruturada antes do encerramento do prazo e da abertura oficial das propostas.
Além disso, foi apontada a utilização de três empresas distintas em um procedimento que teria sido montado para conferir aparência de concorrência e assegurar o resultado previamente definido.
A empresa responsável pelo concurso não entregou à Prefeitura os cadernos de provas, cartões-resposta e bases de dados exigidos pelo edital. A ausência desse material impediu a realização de auditoria independente para conferir as respostas, notas e classificações divulgadas.
Aprovação de candidatos
Durante as investigações, foram realizadas buscas que resultaram na apreensão de um equipamento, onde foi localizada uma relação com 20 nomes associados a cargos específicos, criada aproximadamente 33 dias antes da realização das provas de Ribeirão Cascalheira.
O confronto da lista com o resultado oficial revelou que todas as pessoas relacionadas na lista foram aprovadas ou classificadas. Seis ficaram em primeiro lugar, 14 apareceram entre as três primeiras posições e 18 permaneceram entre os dez primeiros colocados de seus respectivos cargos. Nenhum dos nomes listados foi eliminado ou registrado como ausente.
A investigação também identificou depósitos fracionados em espécie, comunicações particulares com candidatos, arquivos produzidos em ambiente doméstico e registros indicando que a elaboração de questões e a correção das provas eram realizadas por integrantes do próprio núcleo familiar investigado, sem equipe técnica permanente e independente.
Fraudes em outros municípios
Com o avanço das investigações, foi possível identificar fraudes também em concursos realizados pelas prefeituras de Canabrava do Norte, Alto Paraguai, Juscimeira, Novo Mundo, Querência e Bom Jesus do Araguaia. Em todos os municípios, foram encontrados contatos particulares entre candidato e organizador, seguidos de aprovação nas primeiras colocações. Os certames foram realizados por diferentes empresas, que possuíam vínculos com os investigados.
Em Canabrava do Norte, a investigação destacou ainda que o arquivo oficial de classificação final foi produzido por um dos investigados, que também aparecia como candidato no próprio concurso aprovado em primeiro lugar. Outros integrantes da mesma estrutura familiar obtiveram primeiras colocações e, posteriormente, foram empossados em cargos públicos municipais.
Tecnologia e perícia foram decisivas
A investigação envolveu cumprimento de mandados de busca e apreensão, quebra de sigilo bancário e telemático, perícia em computadores e celulares, recuperação de bancos de dados, análise de metadados, credenciais de acesso, documentos eletrônicos e movimentações financeiras.
Ao final, a Polícia Civil concluiu que as empresas não operavam com independência real, mas compartilhavam estrutura, documentos, pessoas, equipamentos e direção operacional.
Além dos cinco indiciados, as investigações prosseguem sobre os demais envolvidos, diante da existência de perícias ainda inconclusas e de fatos que deverão ser apurados em procedimentos complementares.
Diante dos elementos apurados também foi representado pela anulação integral do Concurso Público nº 01/2024, pelo compartilhamento das provas com os municípios atingidos, pela instauração de processos administrativos contra as empresas envolvidas e pela adoção de medidas para impedir a destruição ou descaracterização de documentos digitais utilizados em contratações públicas
Polícia
MPF denuncia 33 pessoas por esquema de tráfico em MT e mais 9 estados, e bloqueia R$ 78 milhões
O Ministério Público Federal (MPF) denunciou 33 pessoas por participação em uma estrutura criminosa transnacional responsável pela importação de cocaína da Bolívia, pelo financiamento da logística do tráfico internacional e pela lavagem de dinheiro proveniente da atividade ilícita.
A pedido do MPF, a Justiça Federal determinou o bloqueio de R$ 78,1 milhões em bens e valores dos denunciados, incluindo imóveis, aeronaves, veículos de alto valor e recursos financeiros.
As denúncias abrangem os crimes de tráfico internacional de entorpecentes, lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro, organização criminosa e falsificação de documentos.
Origem da investigação – A investigação teve início em 20 de abril de 2025, após uma aeronave realizar pouso clandestino na zona rural de Santa Rita do Araguaia (GO). No interior do avião, foram encontrados 450 tabletes que totalizavam 470,8 quilos de cloridrato de cocaína. Os dois ocupantes da aeronave fugiram em direção a uma área de mata, mas foram localizados e presos em flagrante.
Com os pilotos, foram apreendidos aparelhos celulares, equipamentos de navegação aérea e manuscritos contendo coordenadas geográficas referentes à Bolívia. A análise de um GPS aeronáutico permitiu reconstruir a rota utilizada entre a região do Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS), na Bolívia, e o estado de Goiás.
Em setembro de 2025, os dois pilotos do avião – Cruz Orlando Garbon Alvarez, de nacionalidade venezuelana, e Jefferson Cajias Chavez, boliviano – foram condenados por tráfico internacional de entorpecentes. O processo está em fase de recurso no Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
A partir das informações obtidas nos equipamentos e do cruzamento de dados bancários, fiscais e telemáticos, o MPF identificou uma estrutura criminosa permanente e organizada, com divisão de tarefas entre grupos responsáveis pelo transporte da droga, pelo financiamento das operações e pela ocultação de patrimônio.
Núcleos da estrutura criminosa – Segundo as denúncias, o primeiro núcleo era responsável pela logística aérea, incluindo a compra, o financiamento e a utilização das aeronaves empregadas no transporte internacional da cocaína.
O avião apreendido havia sido adquirido por R$ 1,426 milhão, mas foi registrado em nome de terceiro para ocultar seus proprietários. Também foram identificadas outras aeronaves, pistas clandestinas, equipamentos de comunicação via satélite e pontos de apoio em Goiás, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Maranhão.
O segundo núcleo concentrava o financiamento das operações e a primeira etapa da lavagem de dinheiro. Conforme o MPF, a aquisição da aeronave foi viabilizada por pagamentos pulverizados entre pessoas físicas, empresas de fachada, contas de passagem e pessoas interpostas, dificultando o rastreamento da origem dos recursos. A investigação também identificou o uso de identidade falsa para a constituição de empresa utilizada na circulação dos valores.
O terceiro núcleo atuava na administração patrimonial e na blindagem de ativos. Empresas do setor de transportes eram utilizadas para concentrar movimentações financeiras, registrar bens e conferir aparência de legalidade ao patrimônio dos integrantes da estrutura. Durante as buscas, foram apreendidos documentos, aparelhos eletrônicos e dezenas de cheques de terceiros, que totalizavam aproximadamente R$ 557 mil e eram utilizados na movimentação financeira do grupo.
O quarto núcleo era dedicado à lavagem de dinheiro e estava dividido em quatro braços: contas de passagem e pessoas interpostas; aquisição e circulação de veículos de alto valor; empresas de construção civil e de fachada; e comércio de gás com simulação societária.
As investigações apontam que carros de luxo, imóveis e estruturas societárias eram utilizados para ocultar patrimônio e afastar os controladores da titularidade formal dos bens. Também foi identificado um esquema de concessão de crédito e desconto de cheques, descrito nas denúncias como um “banco paralelo”, utilizado para dar liquidez às operações financeiras da estrutura criminosa.
Remessas por “dólar-cabo” – O MPF também identificou a utilização do sistema conhecido como “dólar-cabo” para a realização de remessas clandestinas de recursos à Bolívia, em quatro operações ocorridas entre março e abril de 2025.
Por esse mecanismo, valores depositados no Brasil eram disponibilizados no exterior sem passar pelos canais oficiais de câmbio. Segundo as denúncias, os recursos eram utilizados para custear pilotos, abastecimento e manutenção de aeronaves.
Suspeita de simulação de morte – Outro desdobramento da investigação envolve Arnaldo Agostinho Sottani, apontado nas denúncias como comprador e financiador oculto do avião usado pela estrutura criminosa. Ele desapareceu em novembro de 2025, e familiares informaram que ele teria morrido num acidente aéreo.
A investigação, entretanto, não localizou registros oficiais do voo, destroços, corpo ou outros elementos que confirmassem o suposto acidente. Dias antes do desaparecimento, o investigado havia outorgado procuração com amplos poderes para a administração e a transferência de seus bens.
Diante das circunstâncias, o MPF passou a investigar a hipótese de simulação da própria morte, requereu a prisão preventiva e a inclusão do nome do investigado na Difusão Vermelha da Interpol.
Investigação continua – A fase ostensiva da Operação Rota Andina foi deflagrada em 12 de maio de 2026, com o cumprimento de mandados de prisão, busca e apreensão e bloqueio de bens em Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Amazonas, Rio Grande do Norte, Maranhão e Distrito Federal.
Durante as diligências, foram apreendidos aparelhos celulares, computadores, documentos, dinheiro, joias, relógios e veículos de alto valor.
Ainda estão em andamento perícias em equipamentos eletrônicos, avaliações patrimoniais, cruzamentos de informações bancárias, fiscais e contábeis e outras diligências que poderão identificar novos envolvidos e revelar infrações penais ainda não abrangidas pelas denúncias oferecidas.
Com o surgimento de novos elementos, o MPF poderá apresentar novas denúncias, promover aditamentos às acusações já formuladas ou adotar outras medidas nos próximos desdobramentos da Operação Rota Andina.
As denúncias já apresentadas serão analisadas pela Justiça Federal. Aos denunciados são assegurados o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência.
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