Opinião
A arte de transformar emoção em música
Opinião
*Por Manoel Izidoro
Compor é um gesto de coragem. Antes que uma melodia chegue aos ouvidos do mundo, ela nasce frágil, quase sussurrada, no íntimo de quem a cria. Muitas vezes, surge quando ninguém está olhando: no silêncio da madrugada, no caminho para o trabalho, entre um compromisso e outro. É nesses espaços simples e invisíveis que mora o compositor. Por isso o Dia Mundial do Compositor, celebrado no último dia 15 de janeiro, merece ser celebrado com todo respeito e profundidade.
Quando olho para meus alunos na IGC, vejo exatamente esse instante mágico, o brilho nos olhos quando percebem que podem transformar sentimento em som. Compor é traduzir o que nem sempre cabe em palavras. É dar forma ao que pulsa, ao que dói, ao que inspira. É, sobretudo, um exercício de humanidade.
Ser compositor em uma sociedade acelerada, que muitas vezes valoriza apenas o resultado pronto, é um ato de resistência. Persistir em criar é insistir que a sensibilidade importa, que a arte tem valor e que a cultura é o que humaniza o nosso tempo.
No Brasil, essa resistência ganha contornos ainda mais profundos. Somos um país que respira música, mas que nem sempre reconhece a complexidade do processo criativo. Compositores enfrentam desafios diários, desde a falta de espaços para difusão até a pouca valorização profissional. Ainda assim, continuam, porque a música insiste em existir.
Celebrar essa data é uma forma de olhar com mais cuidado para quem dá vida às melodias que nos acompanham. É reconhecer o artista que transforma pequenas ideias em grandes emoções, que encontra poesia no cotidiano e que registra sentimentos em papéis improvisados, no celular ou onde houver espaço para não deixar a inspiração escapar. É lembrar que cada canção que marca nossas histórias, nas alegrias e nas dores, nasce do trabalho dedicado de alguém que escolheu transformar sensibilidade em música.
Na Escola IGC, acompanhando a trajetória de tantos estudantes ao longo dos anos, aprendi que todo músico carrega dentro de si uma possibilidade criativa. Às vezes ela aparece na interpretação. Outras, na curiosidade por experimentar novos sons. E quando esse impulso criador desperta, seja para compor, arranjar ou improvisar, nasce ali um gesto artístico que merece ser acolhido.
A arte não surge do nada. Ela nasce de pessoas comprometidas em sentir, refletir e transformar. A cada compositor, profissional, iniciante, anônimo ou consagrado, deixo aqui meu respeito e minha admiração. Sem vocês, o silêncio seria apenas silêncio. Com vocês, o silêncio vira música.
*Manoel Izidoro é professor e proprietário da Escola de Música IGC de Cuiabá.
Opinião
Para muitas mulheres, ter para onde ir é o começo da liberdade
Por Scheila Pedroso
Quando falamos sobre violência contra a mulher, uma pergunta sempre me inquieta: quantas mulheres querem sair de uma situação de violência, mas simplesmente não têm para onde ir?
Ao longo da minha trajetória na gestão pública, aprendi que os problemas da vida real raramente chegam separados. A falta de moradia, a dependência financeira, a vulnerabilidade social e a violência muitas vezes fazem parte da mesma história.
Por isso, enfrentar a violência contra a mulher exige mais do que dizer a ela que denuncie. É preciso garantir que, depois da denúncia, exista uma rede capaz de acolher, proteger e, principalmente, criar condições para que ela possa reconstruir a própria vida.
Neste Agosto Lilás, essa reflexão precisa ir além das campanhas e chegar às políticas públicas.
Uma mulher precisa se sentir segura para pedir ajuda. Precisa saber onde procurar apoio. Precisa ter condições de trabalhar, sustentar seus filhos e recomeçar. E, muitas vezes, precisa de algo tão básico quanto um lugar seguro para chamar de casa.
Durante muitos anos trabalhando com políticas públicas, aprendi que cuidar das pessoas também significa compreender a realidade que existe por trás de cada problema. Não basta tratar a consequência sem olhar para aquilo que mantém uma mulher presa a uma situação de violência.
Combater a violência também é construir autonomia.
É garantir proteção, oportunidade, renda, moradia e dignidade para que nenhuma mulher precise escolher entre permanecer onde sente medo ou partir sem saber para onde ir.
Agosto é Lilás. Mas esse compromisso precisa existir o ano inteiro.
Scheila Pedroso
Arquiteta, gestora pública e pré-candidata a deputada estadual.
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