Opinião
Incompreensível estranheza do ser
Opinião
Vividos que estão dois terços da minha vida em cima de três placas tectônicas continentais diferentes, engajado na guerra-fria, combatendo a globalização e enfrentando o digital, encontro-me agora confrontado com algo bem mais difícil de interpretar. Muito do que está a acontecer desperta em mim um misto de curiosidade e inquietação em saber se estamos mergulhados num processo revolucionário ou se diante de uma sinistralidade civilizatória. Normalmente o processo revolucionário inicia-se por via de acontecimentos socioculturais de cariz coletivo, decorrentes de insatisfação face a negligência política que, menos conservadora ou mais reformista, acaba por causar ruptura com o paradigma. Mas muito sinceramente não me parece ser o que está a ocorrer neste momento, uma vez que aspectos hierárquicos e de objetivo não estão sendo postos em causa, nem mesmo a estruturação governamental, econômico e religiosa está sendo atingida. Já no caso da sinistralidade humana, não sejamos ingênuos, muito provavelmente estaremos perante aquilo que recorrente e historicamente só tem levado pessoas para a fogueira, ou seja, mantem-se em mim a preocupante previsibilidade de que, cedo ou tarde, voltar-se-ão a acender fogueiras. Mas, e a interferência genética que fazemos na biologia evolutiva, e os resultados obtidos com os avanços na física quântica, a robotização versus uberização, assim como os emergentes inúteis produtivos que estão a materializar-se a uma velocidade para a qual não estamos minimamente habilitados a responder apropriadamente? Qual é o impacto de tudo isso em nós, é um questionamento que precisarmos fazer, reconhecendo que talvez ninguém saiba responder a isso, a não ser que possivelmente estamos somente a fugir para a frente, onde chegaremos ainda mais dependentes, a troco de liberdade pessoal.
Nas limitações da minha insignificância, olho o entorno e vejo crescerem dificuldades de interação com o normal desassossego das relações. O ajuste, a consideração e a clareza das relações não mais se desenvolve de modo linear e progressivo, e a ética, a evolução e o amor, parece não mais fazer parte da equação existencial que ainda não conseguimos resolver. Mas não vamos desesperar no vazio. Ainda podemos iniciar um processo adaptativo que, não sendo mais para nós, será para aqueles para quem construímos este mundinho e a quem dizemos amar. A passagem de testemunho aos descendentes é para mim a obrigação mais extrema e séria que temos de realizar em vida. Há noite, quando me deito, penso um pouco sobre o que comunicar no dia seguinte e como o vocabulário poderá contribuir para modificar práticas e refinar posições. Fico sonhando quanto benéfico seria expressarmos melhor a palavra sim, usando-a de forma mais afirmativa, num inequívoco compromisso com o que defendemos ou desejamos e não mais como um simples efeito sonoro de um largo sorriso. Ou quanto oportuno seria fazermos um maior uso da palavra não, passando a expressar ela como uma imposição ao debate entre diferentes e não mais como um freio acionado a fundo pelo receio. E quando penso como passar das palavras aos atos, fico imaginando também quanto benéfico seria parar de vez com a negação que se tem em repassar conhecimento ao próximo. Parar com essa posição esdrúxula de querer ser o melhor entre os piores. Eu, particularmente, sinto-me mais realizado quando sou o pior entre os melhores, pois nesses momentos estou com Isaac Newton, Ludwig van Beethoven, Pablo Picasso, Nelson Mandela e tantos outros, que não humanoides inconsequentes, insípidos e fúteis.
Desprovidos dos devidos fundamentos e contextos, fica muito mais difícil pensar e respirar na insalubridade intelectual a que se está exposto. Só me recuso em abandonar o testemunho que carrego comigo, no qual a democracia se inscreve como um sistema capaz de eleger execráveis excrescências, eu sei, mas que tem nele gravado os direitos fundamentais da dignidade da pessoa humana como principal desígnio, presente e futuro. Com a perspectiva de escala e a expectativa das relações que aprimorei aqui no Brasil, permito-me agora mencionar um fato. O planeta é composto por 71% de oceanos e 29% de continentes. A superfície sólida tem 16% de desertos e terras geladas, mais 7% de florestas. Pouco mais de oito bilhões e duzentos milhões de pessoas estão agrupados em 6% do território. O ambiente está tensionado e perder a palavra compromete a consciência.
Rui Perdigão – Escreve sem Acordo Ortográfico e sem Inteligência Artificial; Administrador, geógrafo, presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso
Opinião
O empresário vai pagar a conta? Os desafios econômicos após as eleições
O resultado das eleições de 2026 abrirá uma nova etapa para a economia brasileira. A partir de 2027, as decisões do governo eleito, a atuação do Congresso Nacional e as condições do cenário internacional poderão influenciar os juros, a inflação, o crédito e o ambiente de negócios.
Para o empresário, compreender esses movimentos é essencial. As decisões econômicas podem repercutir no custo de financiamento, nas margens operacionais, na demanda e na capacidade de cumprir obrigações financeiras.
A trajetória das contas públicas influencia as expectativas de investidores e a percepção de risco do país. O crescimento da dívida e a credibilidade das medidas fiscais podem pressionar os juros de longo prazo e afetar as condições de financiamento das empresas. Esses efeitos, contudo, dependem de fatores como a política monetária, o cenário internacional e a confiança dos agentes econômicos.
Quando o crédito fica mais caro ou restrito, empresas que dependem de capital de giro ou de financiamento para investir podem enfrentar maior pressão sobre o caixa. A inflação também merece atenção, pois o aumento dos custos operacionais nem sempre pode ser repassado integralmente aos clientes.
Os impactos podem variar conforme a atividade econômica. No agronegócio, o intervalo entre os investimentos na produção e a comercialização pode gerar descompassos entre receitas e vencimentos. Oscilações nos preços dos insumos, nas commodities e nas condições de crédito podem comprometer o planejamento financeiro.
Na indústria, o custo das matérias-primas e o financiamento da produção afetam as margens. No comércio e nos serviços, a redução da demanda, o aumento das despesas e os atrasos nos recebimentos podem comprometer a liquidez.
É nesse contexto que surge a pergunta central: o empresário vai pagar a conta? Embora não seja possível antecipar os efeitos das decisões do próximo governo, os custos de eventuais desequilíbrios econômicos podem chegar ao setor produtivo por meio do crédito, dos preços e da redução das margens. A intensidade desse impacto dependerá da exposição de cada empresa e de sua capacidade de absorver mudanças no cenário econômico.
Por isso, o planejamento precisa considerar diferentes cenários, incluindo a capacidade de pagamento, o perfil das dívidas e a necessidade de capital de giro.
O endividamento, por si só, não representa um problema. O risco surge quando o custo, o volume ou o prazo das obrigações deixa de ser compatível com a geração de caixa. Nessa situação, a empresa pode comprometer pagamentos essenciais e depender de novos empréstimos para honrar dívidas anteriores.
Identificar esses sinais permite avaliar alternativas antes que as dificuldades se agravem. A Recuperação Judicial, prevista na Lei nº 11.101/2005 e suas alterações, pode viabilizar a reorganização de empresas que atendam aos requisitos legais. Sua adequação depende da situação financeira, da composição do passivo e da viabilidade da atividade. A renegociação extrajudicial também pode ser considerada, conforme as circunstâncias.
O conhecimento em Direito Empresarial, com destaque para Recuperação Judicial, reestruturação de empresas e questões relacionadas ao agronegócio já demonstrou a necessidadede uma estratégia adequada. A análise jurídica permite examinar obrigações, garantias e alternativas de reorganização de acordo com a realidade de cada negócio.
Os efeitos do período pós-eleitoral dependerão das decisões implementadas e das condições econômicas. Para o empresário, acompanhar esse cenário é importante, mas conhecer a própria exposição financeira e avaliar os riscos com antecedência pode ser determinante para preservar a atividade e orientar decisões em momentos de incerteza.
*MARCO AURÉLIO MESTRE MEDEIROS é advogado, especialista em recuperação judicial de empresas, sócio-fundador do Mestre Medeiros Advogados Associados, com atuação nacional, secretário-geral da Comissão Especial de Falências e Recuperação Judicial do Conselho Federal da OAB e Diretor Administrativo do Instituto Brasileiro de Insolvência – IBAJUD. Membro da Comissão Estadual de Falência e Recuperação de Empresa da OAB-MT e da Comissão de Falência e Recuperação Judicial da OAB-MS
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