Opinião
O Falcão e o Ditador: Uma Crônica sobre Justiça, Petróleo e Soberania
Opinião
Por André Barcelos – Advogado
O dia amanheceu com o barulho de uma bomba sobre o já conturbado tabuleiro geopolítico latino-americano: Nicolás Maduro, o autocrata venezuelano, e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados em uma operação relâmpago das forças especiais americanas. A imagem do “Presidente Obrero” subjugado, um troféu de guerra para o falcão do norte, rodou o mundo em segundos. Para milhões de venezuelanos, dentro e fora de seu país devastado, a cena representou um catártico fim de um pesadelo. Para o resto do mundo, um precedente perigoso e uma incômoda pergunta: a que custo se faz justiça?
A Longa Agonia Venezuelana
Para entender a complexidade do momento, é preciso rebobinar a fita até 2013, quando Maduro assumiu o poder. O que se seguiu foi a crônica de uma morte anunciada. A Venezuela, uma nação outrora próspera, mergulhou em uma crise humanitária sem precedentes. O regime de Maduro, marcado pela corrupção endêmica e pela incompetência administrativa, transformou o país em um campo de batalha silencioso, uma guerra civil não declarada contra uma população desarmada.
Os números, frios e cruéis, contam a história. Cerca de 7,71 milhões de pessoas, um quarto da população, fugiram do país, no maior êxodo da história recente do hemisfério ocidental. A maioria tendo o Brasil como anteparo inicial, mas isso deixarei para outro texto. A liberdade de expressão foi sistematicamente aniquilada, conforme noticiado pelo site português “Observador”, com mais de 183 violações registradas em apenas nove meses de 2025. Opositores políticos foram cassados, presos e torturados em um plano coordenado para silenciar qualquer dissidência, como detalhado em relatórios da Missão Internacional da ONU. As eleições, como as de 2018 e 2024, foram amplamente denunciadas como fraudulentas, servindo apenas para perpetuar a farsa de uma democracia.
O sistema de saúde entrou em colapso, com hospitais sem medicamentos básicos e médicos fugindo em massa, tudo amplamente noticiado pelos veículos de imprensa. A educação definhou, com professores recebendo salários de fome, em torno de US$ 20 por mês. A violência explodiu, com taxas de homicídio entre as mais altas do mundo. A Venezuela de Maduro é um estado falido, onde a fome, a doença e o medo eram as únicas políticas públicas eficazes.
O Silêncio dos Inocentes
O mundo assistiu a tudo isso com uma mistura de horror e inércia. Condenações protocolares, sanções econômicas e resoluções da ONU se mostraram ineficazes para frear a espiral de violência e miséria. A comunidade internacional, paralisada por seus próprios interesses e pelo dogma da não-intervenção, pouco ou nada fez para aliviar o sofrimento do povo venezuelano. A soberania, um princípio sagrado do direito internacional, tornou-se o escudo por trás do qual Maduro cometeu seus crimes.
O Dilema do Paladino
E então, vieram os americanos. A intervenção, para muitos, surge como um ato de justiça tardia, o reequilíbrio de forças que a população venezuelana, desarmada e faminta, jamais poderia alcançar por si só. Uma ala conservadora da sociedade global pode até comemorar, argumentando que a remoção de um tirano é um bem em si mesma. Mas a história recente nos oferece lições perversas sobre o papel dos EUA como “paladino da justiça”.
As invasões do Afeganistão e do Iraque, justificadas por pretextos que se revelaram falsos – as famosas armas de destruição em massa que nunca existiram –, deixaram um rastro de destruição, instabilidade e morte. Em vez de democracias florescentes, essas intervenções criaram vácuos de poder que fomentaram o surgimento de grupos terroristas ainda mais radicais, como o Estado Islâmico. A retirada caótica de Cabul em 2021, com o Talibã reassumindo o poder, é um testemunho sombrio do fracasso da “guerra ao terror”.
A Soberania em Xeque
O direito internacional, consubstanciado na Carta das Nações Unidas, é claro em seu Artigo 2º, parágrafo 4º: proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado. A soberania é o pilar da ordem mundial. No entanto, como questiona o jurista brasileiro Valerio Mazzuoli, no artigo “Soberania e a proteção internacional dos direitos humanos” disponível no site do Senado Federal, a soberania e a proteção internacional dos direitos humanos podem ser “dois fundamentos irreconciliáveis”. Quando um Estado se volta contra sua própria população, cometendo crimes contra a humanidade, a soberania ainda deve ser um escudo absoluto?
A doutrina da “Responsabilidade de Proteger” (R2P), endossada pela ONU, sugere que não. Ela postula que a soberania não é apenas um direito, mas uma responsabilidade. Quando um Estado falha em proteger sua população de atrocidades em massa, a comunidade internacional tem a responsabilidade de intervir. O problema, claro, é quem decide e como se intervém. A ação unilateral dos EUA na Venezuela, sem o respaldo do Conselho de Segurança da ONU, abre um precedente perigoso, sugerindo que a maior potência militar do mundo pode invadir qualquer país que julgar conveniente, criando um ambiente de instabilidade e insegurança global.
Esperança e Ceticismo
É compreensível, e até mesmo justo, que milhões de venezuelanos celebrem a queda de Maduro. A alegria de quem foi forçado a abandonar seu lar, sua família, para fugir da fome e da opressão é genuína e comovente. A esperança de um recomeço, de reconstruir um país a partir das cinzas, é um sentimento poderoso.
No entanto, um olhar mais atento revela que o falcão americano não voa por altruísmo. A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo, além de vastas riquezas em ouro, gás natural e minerais estratégicos. O interesse dos EUA na Venezuela, assim como no Iraque, transcende a retórica humanitária. A história nos ensina a ser céticos com os “salvadores” que chegam com bombas e promessas, mas com os olhos fixos nas riquezas do subsolo.
A mensagem para o povo venezuelano é de esperança, sim, mas com um pé atrás. Que a queda do ditador seja o início de uma nova era de liberdade e prosperidade. Mas que a liberdade não seja trocada por uma nova forma de subjugação, e que a prosperidade não seja apenas para aqueles que se colocam como paladinos da justiça, com um foco real nas riquezas estratégicas de um país que já sofreu demais.
Opinião
Valorizar quem serve é fortalecer o serviço público
Quando pensamos na Assembleia Legislativa, é natural lembrarmos dos deputados, das votações e das decisões tomadas em plenário. Mas você já parou para pensar em quantas pessoas trabalham para que tudo isso aconteça?
Quem chega à Assembleia encontra profissionais na recepção, na segurança e no atendimento. Pelos corredores, há quem cuide da limpeza, prepare o café e organize os espaços. Nos gabinetes, na comunicação e nos setores administrativos, outros servidores trabalham para que a Casa funcione.
Antes de um projeto chegar à votação, muita gente já contribuiu com ele. Antes de uma demanda chegar ao deputado, alguém já ouviu, orientou e ajudou a encontrar um caminho.
A vida pública me ensinou que ninguém faz nada sozinho. Comecei minha trajetória política em Jaciara, como vereador e, depois, prefeito por dois mandatos, entre 2005 e 2012. Foi ali que compreendi o valor de quem dedica sua vida ao serviço público.
Aprendi que não basta cobrar resultados. É preciso ouvir, oferecer condições de trabalho e reconhecer esforços. Durante nossa gestão, buscamos valorizar o funcionalismo, inclusive com reajustes salariais anuais acima da inflação.
Levei esse aprendizado para outras funções, como deputado estadual, secretário de Assistência Social e chefe da Casa Civil. Cada experiência reforçou uma certeza: por trás de cada serviço público, existem pessoas cuidando de pessoas.
Na assistência social, acompanhei profissionais que acolhem famílias em situação de vulnerabilidade. Muitas vezes, são eles que escutam primeiro, oferecem orientação e ajudam a transformar realidades.
Ao assumir a presidência da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, procurei me aproximar dos servidores, ouvir suas demandas e compreender os desafios de cada setor. Porque valorizar também significa conhecer a realidade de quem trabalha diariamente pela população.
Esse diálogo tem se transformado em ações. Avançamos com reajustes salariais acima da inflação, propostas de Funções de Confiança exclusivas para servidores efetivos e melhorias na estrutura, como a reorganização do estacionamento, com dois pavimentos reservados aos profissionais da Casa.
Outro compromisso é a atualização do Plano de Cargos, Carreiras e Subsídios (PCCS), cuja última grande reestruturação ocorreu há mais de 20 anos. Queremos construir essa proposta com a participação da gestão, do sindicato e dos servidores.
Também iniciamos os levantamentos necessários para um novo concurso público, identificando as demandas dos setores e planejando o fortalecimento do quadro funcional.
Sei que ainda temos desafios. Valorizar o servidor não se resume a reajustes ou melhorias administrativas. É um compromisso permanente, construído com respeito, diálogo e reconhecimento.
Neste Dia do Servidor Público, quero agradecer a quem está na linha de frente do atendimento e também a quem trabalha longe dos olhos da população. Cada função tem sua importância para que os serviços cheguem a quem precisa.
Depois de tantos anos na vida pública, tenho cada vez mais certeza de que uma instituição não é feita apenas por quem a dirige, mas principalmente por quem dedica seu trabalho a ela.
Parabéns a todos os servidores públicos de Mato Grosso. Que o reconhecimento esteja presente não apenas nesta data, mas nas condições e no respeito que oferecemos todos os dias.
Max Russi é deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso e presidente do Podemos em Mato Grosso
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