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Saúde mental é inegociável

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O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.

Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.

Os números que não podem mais ser ignorados

Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.

No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.

O papel da segurança psicológica

Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.

Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.

A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.

O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.

O que aprendemos na prática

Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.

Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.

Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.

Em dez anos, a pauta amadureceu.

Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.

A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.

* Tatiana Pimenta CEO da Vittude

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Nenhuma de nós deve ser a última da fila

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Todo mês de outubro, o mundo se tinge de rosa para lembrar de uma verdade simples e, ainda assim, difícil de incorporar na rotina: o câncer de mama, quando descoberto cedo, tem grandes chances de cura. O Outubro Rosa nasceu para disseminar essa mensagem e para enfrentar aquilo que mata tanto quanto a doença — o silêncio, o adiamento e a falta de informação. É uma campanha sobre o câncer de mama, sim, mas é, no fundo, uma campanha sobre a prioridade que damos à nossa própria saúde.

E é justamente aí que muitas mulheres falham, não por descuido, mas por excesso de cuidado com os outros. A mulher costuma ser a última da fila dentro de casa. Cuida dos filhos, dos pais, do companheiro, do trabalho, e deixa o próprio corpo para depois. Esse “depois” é perigoso. O exame que fica para o mês que vem, a consulta que se adia porque a agenda está cheia, o sinal que se ignora porque “deve ser nada”, é nesse intervalo que uma doença tratável pode se tornar grave.

Falo disso a partir de um lugar que lida todos os dias com mulheres trabalhadoras. O serviço público de Várzea Grande é feito, em boa parte, por elas: professoras, profissionais de saúde, servidoras das creches, das repartições, da ponta do atendimento à população. São mulheres que passam o dia cuidando da cidade e das famílias dos outros, e que precisam ser lembradas de que também merecem esse cuidado. Cuidar da saúde delas não é um gesto isolado de campanha: é reconhecer que por trás de cada serviço prestado há uma pessoa cuja vida importa.

Por isso enxergo o Outubro Rosa como parte da nossa responsabilidade, e não apenas como uma data no calendário. Um instituto de previdência existe para amparar o servidor ao longo de toda a vida, e saúde é a base de tudo isso. De nada adianta pensar no futuro se não cuidamos do presente. Promover informação, estimular a realização dos exames preventivos, orientar as servidoras e aposentadas sobre a importância do diagnóstico precoce: esse também é um jeito de cuidar de quem dedica a vida ao serviço público. A prevenção é, talvez, o investimento mais barato e mais valioso que existe.

É importante lembrar que o Outubro Rosa não termina quando a servidora se aposenta. Muitas vezes é exatamente nessa fase da vida que a atenção à saúde precisa ser redobrada. As nossas aposentadas, que já entregaram décadas de trabalho à cidade, merecem envelhecer com dignidade, com acompanhamento e com a tranquilidade de saber que não estão sozinhas. Cuidar delas é um compromisso que não se encerra na folha de pagamento.

Como mulher, sei que a rotina nos empurra o tempo todo para colocar as nossas necessidades em segundo plano. Mas há decisões que não podem esperar. Marcar a consulta, fazer o autoexame, procurar o posto de saúde, realizar a mamografia na idade recomendada, são gestos que levam pouco tempo e que podem salvar uma vida. E não há tarefa, por mais importante que seja, que valha mais do que a própria saúde.

O rosa deste mês é um convite ao cuidado, mas ele precisa durar o ano inteiro. Que cada servidora, cada aposentada e cada mulher de Várzea Grande entenda esse mês como um lembrete de que a sua vida vem em primeiro lugar. Da nossa parte, seguiremos reforçando essa mensagem, porque acreditamos que cuidar do servidor é muito mais do que garantir um direito no futuro, é zelar para que ele esteja bem, inteiro e com saúde para viver cada etapa da vida. Afinal, nenhuma de nós deveria ser a última da própria fila.

A prevenção salva vidas. Procure uma unidade de saúde, converse com o seu médico e não deixe os exames para depois.

*Sumaia Leite de Almeida é servidora concursada do município e presidente do Instituto de Seguridade Social dos Servidores Municipais de Várzea Grande (Previvag)

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