Opinião

Intolerância no campus: quando a universidade esquece sua vocação

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Opinião

Por JORGE JAUDY 

 

Dois episódios recentes chamaram atenção para um mesmo problema: a intolerância crescente no ambiente universitário. Em Curitiba, o advogado Jeffrey Chiquini e o vereador Guilherme Kilter (Novo-PR) foram hostilizados por estudantes e retirados do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob escolta de seguranças e com apoio da Polícia Militar.

O evento — uma palestra sobre a atuação do STF — acabou inviabilizado em meio a empurrões, gritos e bombas de efeito moral do lado de fora. Relatos indicam agressões leves e ocupação prévia do espaço pelos manifestantes, o que impediu a realização do ato.

No dia seguinte, em Orem, Utah (EUA), o influenciador conservador Charlie Kirk, fundador da organização estudantil Turning Point USA, foi morto a tiros durante uma fala na Utah Valley University.

O elo entre esses dois episódios é simbólico e preocupante: ambos ocorreram em universidades — instituições que, por natureza, deveriam ser espaços de convivência democrática, pesquisa e pluralidade de ideias. Desde a Idade Média, o termo universitas designa a comunidade de mestres e estudantes.

A própria etimologia remete a totalidade, universalidade e corpo coletivo. A Constituição brasileira reforça essa missão: o artigo 206 garante a liberdade de aprender, ensinar e divulgar o pensamento, enquanto o artigo 207 assegura a autonomia didático-científica.

Essa não é apenas uma reflexão teórica. Como graduado em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso, e hoje advogado atuante, tive a oportunidade de viver um período em que o debate acadêmico era amplo, livre e, sobretudo, respeitoso. Divergíamos em muitas questões:  da política ao direito, mas a pluralidade de opiniões era vista como riqueza, não como ameaça.

Foi nesse ambiente, de embates duros, porém civilizados, que se consolidou a convicção de que a universidade só cumpre sua vocação quando consegue acolher a diferença sem transformar a discordância em hostilidade.

O direito à manifestação é inegociável e faz parte da vida em sociedade. Mas há uma diferença fundamental entre manifestar-se contra uma ideia e impedir que ela seja exposta. Quando manifestações avançam para a ocupação de espaços, intimidação física e inviabilização de eventos, a linha entre o legítimo protesto e o veto autoritário é ultrapassada.

Foi o que ocorreu em Curitiba: a discordância com os convidados poderia ter sido expressa em cartazes, debates paralelos ou manifestações críticas, mas não no bloqueio do acesso e na escalada de hostilidade.

A tragédia em Utah, por sua vez, mostra até onde a intolerância pode chegar quando a violência é normalizada. O assassinato de um palestrante em pleno campus universitário é a face mais extrema de uma escalada que vem sendo observada em várias universidades americanas.

Esses fatos revelam uma erosão preocupante do pacto de convivência democrática. Universidades não podem se tornar reféns do grupo mais barulhento, nem tampouco expor alunos e convidados a riscos de agressão.

Preservar a liberdade acadêmica exige regras claras para o exercício do protesto, protocolos de segurança eficazes e, sobretudo, compromisso institucional com a pluralidade de ideias. Isso não significa neutralidade diante de discursos opostos, mas a certeza de que a resposta não pode ser imposta pela força.

Quando a discordância é substituída pela hostilidade e o debate cede espaço à intimidação, perde-se a essência de um espaço criado para o confronto civilizado de ideias.

Os episódios em Curitiba e Utah, cada um a seu modo, expõem uma crise de civilidade que ameaça esse ideal. Reitores, colegiados e autoridades precisam agir não apenas reativamente, mas com planejamento e prevenção.

Garantir o direito de aprender, ensinar e conviver na diferença é um dever institucional. Só assim a universidade poderá continuar sendo o lugar onde ideias fortes se confrontam com firmeza e respeito, sem que ninguém precise de escolta para entrar, e muito menos perca a vida por se expressar.

JORGE JAUDY é advogado em Cuiabá. 

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Assistência social, habitação e oportunidades: uma agenda para enfrentar a pobreza

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Por Scheila Pedroso

Falar sobre erradicação da pobreza exige compreender que a vulnerabilidade social não se resume à falta de renda. Ela também aparece quando uma família não tem moradia adequada, quando uma mãe precisa conciliar o trabalho com o cuidado dos filhos ou quando a falta de oportunidades impede alguém de construir uma vida com mais segurança e autonomia.

O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, celebrado em 17 de outubro, nos convida a refletir sobre essas realidades e sobre a responsabilidade do poder público na construção de soluções permanentes.

Ao longo da minha trajetória na gestão pública, especialmente à frente da Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Habitação de Sinop, entre 2021 e 2024, acompanhei de perto as dificuldades enfrentadas por muitas famílias. Essa experiência me ensinou que enfrentar a pobreza exige conhecimento da realidade local, planejamento e capacidade de transformar programas e recursos em resultados concretos.

A assistência social tem papel fundamental nesse processo. É por meio dela que muitas famílias encontram acolhimento, orientação, acesso a benefícios e acompanhamento para enfrentar situações de vulnerabilidade. A superação da pobreza, porém, também depende de políticas articuladas de educação, saúde, habitação, qualificação profissional e geração de renda.

Uma família pode precisar de um benefício para garantir a alimentação naquele momento, mas também necessitar de apoio para conseguir emprego, qualificar-se profissionalmente ou conquistar uma moradia própria. Cada situação exige uma resposta adequada, e a gestão pública precisa conhecer as pessoas que atende para identificar suas necessidades e acompanhar os resultados das ações realizadas.

Essa compreensão esteve presente no trabalho desenvolvido em Sinop. Na área habitacional, a retomada do Residencial Nico Baracat possibilitou a entrega de 1.440 apartamentos, garantindo a milhares de pessoas a oportunidade de conquistar a casa própria e construir uma vida com mais estabilidade.

A moradia tem papel importante no enfrentamento da pobreza porque interfere diretamente no orçamento e nas condições de vida das famílias. Quem compromete uma parcela significativa da renda com aluguel enfrenta mais dificuldades para custear alimentação, transporte, educação e outras despesas essenciais. Por isso, a política habitacional precisa considerar também a infraestrutura, o acesso aos serviços públicos e as condições de vida nos bairros.

Essa relação entre moradia e dignidade também está presente no debate internacional. Em 2026, o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza destaca a importância da moradia segura para todos, reforçando que a falta de habitação adequada pode aprofundar a exclusão e dificultar o acesso a outros direitos fundamentais.

Essa perspectiva precisa orientar as decisões dos municípios. O crescimento urbano, a oferta de habitação de interesse social e a organização dos serviços públicos devem ser planejados de forma integrada. Entregar uma unidade habitacional é uma etapa importante, mas é necessário garantir que as famílias tenham acesso a oportunidades e condições adequadas para viver naquele território.

Também precisamos reconhecer que a pobreza não atinge todas as pessoas da mesma maneira. Mulheres que sustentam sozinhas seus lares, famílias com crianças pequenas, pessoas com deficiência e cidadãos que enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho podem precisar de estratégias específicas. Políticas públicas eficientes consideram essas diferenças e organizam o atendimento de acordo com as necessidades de cada realidade.

Na gestão pública, aprendi que a qualidade de uma política não deve ser medida somente pelo volume de recursos aplicados ou pelo número de atendimentos realizados. Esses indicadores são importantes, mas é necessário avaliar o que mudou na vida de quem recebeu aquele atendimento. Identificar falhas, corrigir caminhos e dar continuidade às iniciativas que apresentam resultados também fazem parte da responsabilidade de quem administra.

O Brasil registrou avanços recentes no enfrentamento da pobreza. Segundo dados do IBGE divulgados em dezembro de 2025, a proporção de pessoas na pobreza caiu de 27,3% para 23,1% entre 2023 e 2024. No mesmo período, a extrema pobreza recuou de 4,4% para 3,5%. Apesar desses resultados, as desigualdades persistem e continuam exigindo políticas consistentes.

A redução da pobreza não é responsabilidade exclusiva de uma secretaria ou de uma única esfera de governo. União, estados e municípios precisam atuar de forma coordenada, com planejamento, financiamento adequado e acompanhamento dos resultados. A proteção social deve atender quem enfrenta necessidades imediatas, enquanto outras políticas precisam ampliar as condições para que as famílias conquistem autonomia e melhores oportunidades.

A experiência na gestão pública reforçou minha convicção de que os resultados mais importantes são aqueles que permanecem na vida das pessoas. Uma família que conquista sua moradia, alguém que encontra uma oportunidade de trabalho ou uma pessoa que consegue acessar um serviço essencial passa a ter novas condições para organizar a própria vida.

No Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, precisamos renovar o compromisso com políticas públicas capazes de enfrentar as causas da vulnerabilidade e ampliar o acesso a direitos. Isso exige planejamento, integração entre diferentes áreas e disposição para aperfeiçoar as ações sempre que necessário.

Garantir dignidade significa criar condições concretas para que as pessoas exerçam seus direitos e construam suas próprias possibilidades. Esse compromisso precisa estar presente durante todo o ano, nas decisões e nas prioridades de quem trabalha para melhorar a vida das famílias.

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