Opinião
Hospital Central: como é a primeira unidade pública de medicina de alta complexidade de MT
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Desde que o Hospital Central de Alta Complexidade de Mato Grosso começou a funcionar em Cuiabá, a rede pública de saúde no estado passou a contar, pela primeira vez, com uma unidade especializada em medicina de alta complexidade. É algo inédito na história mato-grossense e, por isso mesmo, suscetível a curiosidade e dúvidas.
A medicina de alta complexidade diagnostica e trata casos mais críticos de saúde. Para isso, usa tecnologia avançada, conta com uma equipe multidisciplinar especializada e realiza um acompanhamento integral ao paciente. O ponto de partida ocorre fora do hospital: é quando a Central Estadual de Regulação identifica as situações de saúde mais desafiadoras que podem ser atendidas no Hospital Central.
Hoje, a unidade oferta 12 especialidades cirúrgicas 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS): cirurgia pediátrica, urologia, ortopedia, cirurgia geral, aparelho digestivo, ginecologia, cirurgia vascular, cardiovascular, torácica, mastologia, cirurgia oncológica e neurocirurgia. Mas em que momento a situação se torna um caso de medicina de alta complexidade?
Podemos usar como exemplo a cirurgia ortopédica, uma das primeiras especialidades atendidas pelo Hospital Central em pacientes pediátricos. Considera-se de alta complexidade o procedimento que envolva o uso de órteses, próteses e/ou materiais especiais, ou aquele em que é preciso monitorar o sistema neurológico do paciente, para evitar danos à mobilidade. É quando tecnologia e profissionais especializados são fundamentais.
O uso de tecnologia costuma ser um dos principais aspectos para identificar a medicina de alta complexidade. Nas cirurgias cardíacas, por exemplo, é frequente o emprego da máquina que funciona como coração e pulmão artificiais – Extracorporeal Membrane Oxygenation (ECMO) no inglês, ou Oxigenação por Membrana Extracorpórea. Outro exemplo a ser mencionado são os equipamentos usados, que têm sensores de monitoramento em tempo real e realizam exames sanguíneos simultaneamente ao procedimento cirúrgico.
Outra tecnologia de alta complexidade empregada é o Cell Saver, que faz autotransfusão de sangue. A máquina permite a recuperação do sangue que o paciente perde durante a cirurgia, filtrando, lavando e devolvendo-o para a corrente sanguínea do próprio paciente. Com isso, reduz-se a dependência de bancos de sangue externos, o que diminui o risco de rejeição e infecções, garantindo uma recuperação mais segura.
A realização de cirurgias robóticas também pode ser associada à medicina de alta complexidade realizada pelo Hospital Central, pioneiro em dar acesso a essa tecnologia 100% pelo SUS em Mato Grosso. Inicialmente, foram as cirurgias urológicas, mas hoje outras especialidades são atendidas: ginecologia, cirurgia pediátrica e do aparelho digestivo.
De janeiro para cá, o Hospital Central já realizou 2.128 cirurgias de alta complexidade, das quais 77 foram com auxílio de robô. Entre os procedimentos mais complexos realizados, estão cirurgias para corrigir cardiopatias congênitas em crianças, cirurgias cardíacas com circulação extracorpórea, neurocirurgias com neuronavegação avançada, cirurgias oncológicas com linfadenectomia robótica e cirurgia robótica pediátrica – entre várias outras.
Outro aspecto da medicina de alta complexidade é a capacidade da equipe em responder de forma rápida e efetiva. Isso somente é possível no Hospital Central devido à equipe multi especializada, formada por cerca de 2 mil pessoas. São aproximadamente 600 médicos de mais de 30 especialidades diferentes, para além das 12 especialidades cirúrgicas ofertadas.
Além disso, o time é formado por especialistas em terapia infusional, estomaterapia, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, nutricionista clínico, farmacêutico clínico, entre outros. O desenho organizacional inclui ainda estruturas de apoio (como agência transfusional, exames diagnósticos e laboratório clínico) fundamentais para o serviço de alta complexidade.
A sincronia de toda essa equipe é pré-requisito para garantir o melhor atendimento possível aos pacientes. O que permite essa sincronia é a gestão do Einstein Hospital Israelita, organização filantrópica posicionada como melhor hospital do Brasil, de acordo com o ranking The World’s Best Hospitals 2026 da Newsweek, e com 25 anos de experiência de gestão de unidades do SUS no Brasil. Protocolos bem estabelecidos, qualificação permanente e certificações de diferentes áreas dão as condições para que o quadro de profissionais atue diariamente na recuperação da saúde dos mato-grossenses.
Atualmente, estão disponíveis 287 leitos, dos quais 60 são de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), divididos entre 30 adultos e 30 pediátricos. Os outros 36 leitos são de Unidade de Cuidado Intermediário (UCI), sendo 18 adultos e 18 pediátricos. As enfermarias contam com 140 leitos adultos e 51 pediátricos. A estrutura inclui dez salas no centro cirúrgico, sendo uma exclusiva à cirurgia robótica e outra destinada à hemodinâmica, tecnologia que permite procedimentos minimamente invasivos.
O acesso à medicina de alta complexidade do Hospital Central tem sido bem distribuído geograficamente. Nos primeiros seis meses de funcionamento, 64% dos pacientes que passaram por cirurgia eram de municípios do interior de Mato Grosso – incluindo muitos indígenas de diferentes etnias. Pacientes da capital, Cuiabá, somaram 22% do total, e de Várzea Grande, 14%.
Mato Grosso é um estado continental, com realidades étnicas, sociais e culturais distintas. O primeiro ciclo de funcionamento do Hospital Central de Alta Complexidade ainda está em curso e o objetivo é manter uma trajetória ascendente. E com estes primeiros resultados, é possível afirmar que o hospital pode se consolidar como referência nacional em medicina de alta complexidade e como um polo regional de produção de conhecimento e qualificação para as novas gerações de profissionais da saúde.
Alessandra Bokor, diretora do Hospital Central de Alta Complexidade de Mato Grosso
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Nenhuma de nós deve ser a última da fila
Todo mês de outubro, o mundo se tinge de rosa para lembrar de uma verdade simples e, ainda assim, difícil de incorporar na rotina: o câncer de mama, quando descoberto cedo, tem grandes chances de cura. O Outubro Rosa nasceu para disseminar essa mensagem e para enfrentar aquilo que mata tanto quanto a doença — o silêncio, o adiamento e a falta de informação. É uma campanha sobre o câncer de mama, sim, mas é, no fundo, uma campanha sobre a prioridade que damos à nossa própria saúde.
E é justamente aí que muitas mulheres falham, não por descuido, mas por excesso de cuidado com os outros. A mulher costuma ser a última da fila dentro de casa. Cuida dos filhos, dos pais, do companheiro, do trabalho, e deixa o próprio corpo para depois. Esse “depois” é perigoso. O exame que fica para o mês que vem, a consulta que se adia porque a agenda está cheia, o sinal que se ignora porque “deve ser nada”, é nesse intervalo que uma doença tratável pode se tornar grave.
Falo disso a partir de um lugar que lida todos os dias com mulheres trabalhadoras. O serviço público de Várzea Grande é feito, em boa parte, por elas: professoras, profissionais de saúde, servidoras das creches, das repartições, da ponta do atendimento à população. São mulheres que passam o dia cuidando da cidade e das famílias dos outros, e que precisam ser lembradas de que também merecem esse cuidado. Cuidar da saúde delas não é um gesto isolado de campanha: é reconhecer que por trás de cada serviço prestado há uma pessoa cuja vida importa.
Por isso enxergo o Outubro Rosa como parte da nossa responsabilidade, e não apenas como uma data no calendário. Um instituto de previdência existe para amparar o servidor ao longo de toda a vida, e saúde é a base de tudo isso. De nada adianta pensar no futuro se não cuidamos do presente. Promover informação, estimular a realização dos exames preventivos, orientar as servidoras e aposentadas sobre a importância do diagnóstico precoce: esse também é um jeito de cuidar de quem dedica a vida ao serviço público. A prevenção é, talvez, o investimento mais barato e mais valioso que existe.
É importante lembrar que o Outubro Rosa não termina quando a servidora se aposenta. Muitas vezes é exatamente nessa fase da vida que a atenção à saúde precisa ser redobrada. As nossas aposentadas, que já entregaram décadas de trabalho à cidade, merecem envelhecer com dignidade, com acompanhamento e com a tranquilidade de saber que não estão sozinhas. Cuidar delas é um compromisso que não se encerra na folha de pagamento.
Como mulher, sei que a rotina nos empurra o tempo todo para colocar as nossas necessidades em segundo plano. Mas há decisões que não podem esperar. Marcar a consulta, fazer o autoexame, procurar o posto de saúde, realizar a mamografia na idade recomendada, são gestos que levam pouco tempo e que podem salvar uma vida. E não há tarefa, por mais importante que seja, que valha mais do que a própria saúde.
O rosa deste mês é um convite ao cuidado, mas ele precisa durar o ano inteiro. Que cada servidora, cada aposentada e cada mulher de Várzea Grande entenda esse mês como um lembrete de que a sua vida vem em primeiro lugar. Da nossa parte, seguiremos reforçando essa mensagem, porque acreditamos que cuidar do servidor é muito mais do que garantir um direito no futuro, é zelar para que ele esteja bem, inteiro e com saúde para viver cada etapa da vida. Afinal, nenhuma de nós deveria ser a última da própria fila.
A prevenção salva vidas. Procure uma unidade de saúde, converse com o seu médico e não deixe os exames para depois.
*Sumaia Leite de Almeida é servidora concursada do município e presidente do Instituto de Seguridade Social dos Servidores Municipais de Várzea Grande (Previvag)
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