Cultura
Iphan restitui bens à Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores
Cultura
O Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, restituiu oficialmente dois itens à Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, no Centro do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (13). Os objetos estavam desaparecidos há quase 40 anos e foram encontrados pela equipe técnica do Iphan em leilões de antiguidades nos municípios de Campinas e São Paulo.

Leiloeiros de antiguidades são obrigados por lei a informar ao Instituto sobre a ocorrência dos eventos e os lotes. O museólogo e técnico do Iphan, Rafael Azevedo, explica que o processo se deu a partir do recebimento dessas notificações.
“A gente identificou o brasão da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, que é um brasão muito característico, ele tem a palma, tem o monograma Mariano e a coroa nesses dois objetos, isso tudo em parceria com a própria Irmandade e iniciamos então esse trâmite, teve também a parceria com a superintendência do IPHAN de São Paulo, isso passou também pelo setor técnico científico da Polícia Federal, né? Foram feitas as perícias materiais também nesses objetos, identificaram que os objetos eram genuínos e eles puderam então ser efetivamente devolvidos”.
Os objetos recuperados são um atril, utilizado para apoiar livros litúrgicos nas celebrações religiosas; e um porta-paz, símbolo de saudação entre os fiéis, devolvidos após um processo que durou cerca de um ano. Os itens da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, tombada em 1938, fazem parte da longa lista do Iphan de objetos recuperados.
Segundo Rafael Azevedo, cerca de 20 itens foram restituídos nos últimos três anos no Rio de Janeiro. O museólogo afirma que, além da subnotificação dos detentores e proprietários dos objetos históricos, o principal desafio é a falta de inventários.
“O Iphan tem mais de 50 mil itens catalogados, ainda é um número muito aquém da realidade, que a gente imagina que o nosso acervo tombado a nível nacional passe da escala de 1 milhão. E o primeiro passo para fazer esse inventário ser mais utilizado e ser aplicado como ferramenta de proteção é a digitalização desses inventários. Então o Iphan está trabalhando para colocar no ar uma plataforma de inventário. A expectativa é que esse ano como já esteja funcionando, que é o inventário nacional de bens móveis integrados”.
Segundo ele, o projeto vai tornar público tudo que o Iphan já inventariou, além de estruturar novos inventários, com a colaboração de membros de comunidades brasileiras.
A instituição reforça que a recuperação e a identificação de objetos históricos também podem ser feitas pela população, por meio do Banco de Bens Culturais Procurados. A plataforma desenvolvida pelo Iphan permite consultar informações e encaminhar denúncias que possam auxiliar nas investigações e nos processos de restituição.
*Sob supervisão de Fábio Cardoso
Cultura
Tom Zé: o descobridor de sons completa 90 anos criando e compondo
A curiosidade parece guiar Tom Zé pelo mundo: da leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha, na adolescência, ao ofício de jardineiro no prédio onde mora em São Paulo, o baiano mais paulistano que existe tem um talento nato para transformar o cotidiano em música, como em “Aviso aos Passageiros”. A letra da canção reproduz a mensagem de segurança dos elevadores: “antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.”

Celebrado na exposição gratuita “Tom Zé – 90 anos do Inquieto Jardineiro de Sons”, na Caixa Cultural em São Paulo, até o dia 13 de dezembro, o músico comenta o segredo para seguir compondo, criando e fazendo shows aos 90 anos.
“O seguinte: de manhã, se eu não fizer as coisas orientais que eu aprendi aqui em São Paulo e que prolongam a vida, a ginástica para o estômago, para cabeça, para intestino, para vista, para ouvido… Eu de manhã faço práticas que têm a ver com todos os funcionamentos humanos. E enquanto eu fizer isso, eu vou tá vivo aí, se Deus quiser”.
Tropicalismo
Nascido em 11 de outubro de 1936 em Irará, no sertão da Bahia, Antônio José Santana Martins passou em primeiro lugar no vestibular da Escola de Música em Salvador. Foi na capital baiana que conheceu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa. Se juntou aos tropicalistas em São Paulo e participou do disco “Tropicália ou Panis et Circencis” de 68, mesmo ano em que lançou o disco de estreia “Grande Liquidação”, e venceu o 4º Festival de Música Popular Brasileira com a canção“São, São Paulo”.
A cidade de São Paulo se tornou tema recorrente em composições como “Augusta, Angélica e Consolação” e “A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel”. O trabalho do músico é marcado pela experimentação, do som feito numa enceradeira quebrada ao “buzinório” – instrumento que conecta várias buzinas e que pode ser visto pelo público na exposição. A curadora da mostra, Neuseli Martins, fala sobre a figura inspiradora de Tom Zé.
“Eu acho que assim ele inspira pessoas dos 10 aos 100 né? E vendo ele em atividade criando gravando principalmente dialogando com várias gerações eu acho isso uma característica muito incrível dele. Ele é uma pessoa que tá sempre buscando descobrir alguma coisa nova ou ver as coisas de uma forma diferente né?”
Experimental demais
Em meados dos anos 70, o músico se enveredou por mais experimentações, desconstruindo canções criadas a partir de fragmentos musicais. Visto como experimental demais, Tom Zé foi esquecido pela mídia até os anos 80. Foi redescoberto quando seu disco “Estudando o Samba” foi parar nas mãos do músico David Byrne, ex-líder da banda Talking Heads, que lançou a obra do brasileiro no exterior. Com isso, voltaram as turnês e gravações nos anos 90. Jarbas Mariz, músico que gravou e tocou com Tom Zé por 32 anos, comenta o que aprendeu com ele.
“Por exemplo, dinâmica na música, né? Aquela coisa de de tan dan dan dan, tan dan dan dan, e vai lá pra baixo, vai lá na coisa da dinâmica na música popular. […] Pegar qualquer instrumento, você transformar aquilo ali em som e colocar na sua música, também aprendi isso com ele também. E aquele bandolim maluco que eu tocava com ele, que é um que é um bandolim percussivo, que foi ele que introduziu na minha cabeça”.
O último álbum de estúdio, “Língua Brasileira”, é de 2022. Neste 9 de outubro, foi lançado o álbum ao vivo de um show gravado no Sesc há 30 anos. Em agosto, saiu a música inédita “Futuro Fruto”, uma parceria com Marcelo Segreto e Loretta, músicos de diferentes gerações, provando que Tom Zé ainda tem muito o que inventar na música brasileira.
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