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A Evolução do Termo “Oficial” no Serviço Público Brasileiro e a Essência do Cargo de Oficial Investigador de Polícia

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* Ademar Torres de Almeida

 

Este artigo busca lançar luz sobre a evolução do termo “oficial” no serviço público brasileiro, com foco na essência do cargo de Oficial Investigador de Polícia, analisando sua natureza jurídica, seu papel estratégico na segurança pública contemporânea e, sobretudo, a conexão com a emergência de novas profissões como resposta direta à complexificação das demandas da sociedade atual.

Como destacam Schwab (2016), em A Quarta Revolução Industrial, e Susskind (2020), em A Era das Profissões, vivemos uma era em que a automação, os dados e as novas sensibilidades sociais redefinem o que é trabalho relevante e necessário — em todas as esferas da sociedade.

No setor público, com a adoção de modelos mais ágeis e digitais, observa-se uma reconfiguração de cargos tradicionais e o surgimento de novas funções, como: gestores de políticas públicas baseadas em evidências, analistas de integridade e compliance e cientistas de dados voltados à administração pública.

Na segurança pública, emerge, por meio de lei, a figura do Oficial Investigador de Polícia (OIP), como reflexo da evolução histórica do serviço público, pilar fundamental da segurança e da justiça. Trata-se de uma carreira que exige dedicação, coragem e um profundo senso de múnus público.

O termo “oficial” tem raízes no latim officialis, que designava aquele que exercia um ofício público. Com o tempo, passou a ser associado a funções de comando, especialização ou autoridade pública, especialmente nos contextos militar e administrativo.

No Brasil, o uso do termo foi fortemente influenciado pelos modelos português e francês de administração pública, nos quais “oficiais” eram agentes públicos incumbidos de tarefas técnicas ou de direção.

A figura do “oficial” no serviço público brasileiro possui uma história rica e complexa, entrelaçada com a formação do Estado e a evolução do Direito Administrativo. Embora o conceito de servidor público remonte à necessidade de organização da administração, o termo “oficial” como categoria específica de cargo — como “oficial administrativo” ou “oficial de justiça” — reflete a trajetória de formalização e profissionalização do serviço público.

Durante o Brasil Colônia e o Império, o serviço público era marcado por nomeações por indicação e favorecimento. Os chamados “oficiais” da época eram, em sua maioria, indivíduos que exerciam funções de confiança ou de relevância direta para a Coroa. A administração pública era profundamente patrimonialista, e os cargos frequentemente eram vistos como propriedades ou benefícios pessoais de seus detentores.

Com a Proclamação da República e, especialmente, a partir da década de 1930, a criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) representou um marco na modernização e racionalização da administração pública brasileira. O DASP introduziu o sistema de mérito, que culminou na realização dos primeiros concursos públicos como forma de ingresso nos cargos. O objetivo era claro: profissionalizar o serviço público, afastar o clientelismo e buscar a eficiência. Foi nesse contexto que a estrutura de carreiras e cargos começou a ser formalizada, com descrição detalhada de atribuições e requisitos, dando origem a funções como a de “oficial administrativo”.

A Constituição Federal de 1988 ampliou e consolidou o conceito de servidor público, abrangendo todos os que possuem vínculo com órgãos e entidades governamentais. A Carta Magna instituiu a exigência de concurso público para investidura em cargo ou emprego público, com raras exceções. Leis posteriores, como a Lei nº 8.112/1990, que instituiu o Regime Jurídico dos Servidores Públicos Civis da União, distinguiram os cargos de provimento efetivo (preenchidos por concurso e com estabilidade) e os cargos em comissão (de livre nomeação e exoneração para funções de chefia e assessoramento). Atualmente, a criação de cargos públicos — inclusive os com a denominação “oficial” — é feita por meio de lei, com denominação própria, vencimentos e atribuições específicas.

Dentro dessa evolução surge a figura de importância ímpar para a segurança pública: o Oficial Investigador de Polícia (OIP). Este profissional é a espinha dorsal da Polícia Civil brasileira, atuando diretamente na investigação criminal para a elucidação de delitos.

Dentre as competências e funções essenciais deste profissional, destaca-se a atuação na Investigação Criminal, com a coleta, preservação e análise de provas materiais e digitais, bem como a realização de diligências e operações policiais. Destaca-se também sua atuação em entrevistas e relatórios, pois ao conduzir interrogatórios e registrar depoimentos, redige documentos fundamentais para a persecução penal.

No apoio logístico e operacional, o OIP auxilia no cumprimento de mandados, no transporte de presos e no atendimento ao público. Na inteligência policial, o trabalho do OIP é crucial, ao cruzar informações, identificar padrões criminosos e alimentar bases de dados estratégicas. Por fim, é reservado ao OIP a confecção do Laudo investigativo, cuja peça traz consigo o rigor científico, que demanda exaustivo tempo de análise criminal, pois reúne elementos de convicção para a formação da prova técnica no inquérito policial, garantindo fundamentação científica às conclusões e por sua vez, esse documento, pode ser decisivo para o Ministério Público e o Judiciário

Alguém, inadvertidamente, poderá questionar: “Mas investigadores e escrivães já não fazem isso?” Sim. Contudo, como dito anteriormente, vivemos uma era em que a automação, os dados e as novas sensibilidades sociais redefinem o que é trabalho relevante e imprescindível — em todas as esferas da sociedade.

A investigação criminal moderna baseia-se em métodos científicos de análise de dados, evidências e comportamentos, incorporando técnicas da criminologia, estatística criminal, psicologia investigativa e análise de inteligência. Nesse contexto, a Polícia Civil está aprimorando sua capacidade de coletar e analisar grandes volumes de dados, gerando uma demanda crescente por profissionais capazes de extrair insights e tomar decisões estratégicas, como analistas de dados e engenheiros de Big Data.

Com o avanço da digitalização, a proteção de dados e sistemas tornou-se crucial, ampliando a demanda por especialistas em cibersegurança. A migração de infraestruturas para a nuvem e a complexidade dos sistemas de TI impulsionam a valorização de profissionais em Cloud Computing.

Por lidar com dados sensíveis e sigilosos, essa função não pode ser terceirizada, o que reforça a relevância do OIP na organização policial. Soma-se a isso o tirocínio policial no local de crime, ou seja, a capacidade do policial de, ao chegar à cena do crime, empregar experiência, observação apurada, instinto e conhecimento técnico-legal para identificar elementos relevantes, tomar decisões rápidas e assertivas e preservar ao máximo as evidências. Trata-se de um saber que vai além da formação acadêmica — é desenvolvido com prática, treinamento constante e vivência. É, em essência, o “feeling” ou o “olhar clínico” do policial.

A fim de evitar comparação, é inadmissível qualquer tentativa de equiparação entre o cargo de oficial da Polícia Militar e o de Oficial Investigador, uma vez que se tratam de carreiras distintas, com atribuições, finalidades e formações técnicas completamente diferentes. Tal comparação revela-se irrazoável, pois ignora as especificidades que caracterizam cada função no âmbito da segurança pública.

Diante de tudo isso, é necessário destacar que a nobreza da função vem acompanhada de riscos inerentes. A carreira de Oficial Investigador é uma das mais perigosas no serviço público, sujeita a riscos físicos, como confrontos, acidentes e condições insalubres, e também a riscos psicológicos e emocionais, como estresse pós-traumático, burnout, ameaças, retaliações, assédio judicial e exposição pública.

Mais do que um mero empregado do Estado, o OIP exerce um múnus público — expressão latina que significa “dever” ou “encargo” — referindo-se a uma obrigação legal imposta para o desempenho de uma atividade de interesse coletivo. Isso inclui chamamentos fora do expediente, interrupção de férias e o dever de informar deslocamentos fora da cidade de atuação.

A importância do múnus público na função policial é reiterada por diversos autores. Segundo Di Pietro:

“O múnus público não se confunde com o serviço público em sentido estrito, pois se refere a encargos públicos que não implicam vínculo empregatício, mas sim o exercício de uma função pública delegada ou imposta por lei.” (DI PIETRO, M. S. Z. Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2024, p. 543).

Isso reforça que o OIP não é apenas um funcionário, mas um agente que cumpre uma missão essencial para a sociedade.

Para concluir, a emergência de novas profissões nos setores público e privado é um reflexo direto da velocidade com que a tecnologia avança e da maneira como a sociedade se adapta a novos desafios e oportunidades. Isso exige uma força de trabalho cada vez mais adaptável, multidisciplinar, com domínio técnico e sensibilidade social.

O Oficial Investigador de Polícia representa essa nova configuração: um profissional moldado com conhecimento técnico e visão integrada, preparado para os desafios da sociedade contemporânea. Cabe ao Estado valorizar essa função, adotando políticas de valorização profissional e contraprestação financeira compatível com a complexidade e os riscos da carreira.

Nossa pretensão com este artigo não se limitou apenas refletir em somente acerca da unificação de cargos, como investigadores e escrivães, sob pena de manter-se numa ótica reducionista e superficial, mas evidenciar as novas dimensões de atuação, focadas em habilidades digitais, resolução de problemas complexos, pensamento crítico e capacidade de aprendizado contínuo — sobretudo para o enfrentamento das organizações criminosas no país.

Ademar Torres de Almeida, bacharel em Direito e Comunicação Social, Especialista em Segurança Pública e Direitos Humanos, Mestre em Educação. Investigador de Polícia há 23 anos.

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Comunicação de Mandato: o caminho para a reeleição

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Muita gente defende que a comunicação de governo deve concentrar seus esforços na construção da imagem do principal gestor, seja ele governador, prefeito ou presidente. Eu discordo. E não apenas pelo que estabelece a legislação, mas porque considero essa uma estratégia equivocada.

Aliás, posso afirmar, com a experiência de quem está há anos à frente da comunicação pública, que concentrar a comunicação institucional na figura do governante é um erro de principiante.

Desde fevereiro de 2020, quando assumi o cargo de secretária adjunta de Comunicação da Casa Civil de Mato Grosso, período em que a Comunicação ainda não tinha status de secretaria, estabelecemos uma premissa que norteou todo o nosso trabalho: o centro da comunicação deveria ser o governo, e não o governador.

A lógica era simples. Uma gestão forte contribui para a construção da imagem de um gestor forte. O contrário, necessariamente, não é verdadeiro.

Nosso trabalho se concentrou em destacar os pontos fortes da administração e mostrar à população onde e como o dinheiro público estava sendo investido. Queríamos que, para qualquer lado que o cidadão olhasse, reconhecesse uma obra, uma ação ou uma entrega do Governo do Estado.

Mas não bastava mostrar realizações isoladas. Era preciso construir uma narrativa que permitisse à sociedade compreender a evolução da gestão, suas prioridades e os resultados alcançados em cada etapa.

Primeiro, o desafio de colocar as contas públicas em ordem. Depois, iniciar as obras e ações estruturantes. Na sequência, lançar um grande programa de investimentos e, finalmente, concentrar esforços na execução e conclusão dessas entregas.

Cada fase foi cuidadosamente desenhada na comunicação institucional. E o resultado começou a aparecer quando os conceitos que trabalhávamos passaram a fazer parte da percepção e das conversas da própria população.

O governo que consertou o Estado. O governo que mais fez obras e ações. O governo que faz obras em todos os cantos de Mato Grosso.

Essas ideias não surgiram por acaso. Foram construídas a partir de uma estratégia de comunicação que tinha como alicerce a prestação de contas à sociedade. Afinal, a publicidade dos atos da administração é um princípio constitucional, e a comunicação pública deve servir, antes de tudo, ao direito do cidadão de saber o que está sendo feito com os recursos públicos.

Tudo foi planejado. Mas isso não significa que seguimos um roteiro engessado. Muitas vezes, precisamos rever caminhos, ajustar argumentos e mudar prioridades. Um bom planejamento estratégico não é aquele que permanece intocado, mas o que consegue adaptar-se às realidades impostas pelo dia a dia sem perder de vista seu objetivo.

Quando Mauro Mendes disputou a reeleição ao Governo de Mato Grosso, a aprovação de sua gestão era superior a 70%.

Um governo forte, reconhecido pela população, criou as condições para um resultado político: a reeleição.

No segundo mandato, mantivemos a essência da estratégia. O que mudou foram os argumentos, as prioridades e as ações que precisavam ser comunicadas. Afinal, uma gestão evolui, e a comunicação precisa acompanhar essa evolução.

Ao longo dos mais de sete anos da gestão Mauro Mendes, enfrentamos crises de diferentes naturezas. E, em todas elas, buscamos assumir a narrativa dos fatos, apresentando informações e posicionamentos fundamentados na verdade.

Isso foi fundamental para consolidar a reputação do governo.

Costumo dizer que a credibilidade funciona como uma espécie de reserva, uma “gordura” que se acumula ao longo dos anos. Cada entrega cumprida, cada informação comprovada e cada posicionamento coerente contribuem para construir essa reserva de confiança.

E ela faz diferença, especialmente nos momentos de crise.

Quando a sociedade reconhece a seriedade de uma gestão, seus posicionamentos encontram maior disposição para serem ouvidos. Isso não significa estar imune a críticas, mas ter credibilidade suficiente para que a população considere os fatos antes de formar sua opinião.

Mauro Mendes deixou o Palácio Paiaguás e passou o comando do Estado ao seu vice, Otaviano Pivetta, com um governo aprovado por 82% dos mato-grossenses.

Mais uma vez, a comunicação precisou ajustar sua estratégia.

Tínhamos um novo governador, com sua própria identidade e seu estilo de gestão, mas também a responsabilidade de mostrar que o trabalho continuaria. Que as obras não seriam interrompidas, que os investimentos seguiriam e que o ciclo de desenvolvimento teria continuidade.

Foi nesse contexto que lançamos a campanha “Governo que foi lá e fez, vai lá e faz”.

Uma mensagem simples, direta e sustentada por um conceito estratégico: continuidade com capacidade de realização.

Precisávamos apresentar o novo gestor sem romper com a reputação construída pela administração. Mostrar que havia uma mudança de comando, mas não uma interrupção das entregas. E, sobretudo, preservar na população a confiança de que Mato Grosso continuaria avançando.

Novamente, o centro da comunicação permaneceu o mesmo: as ações do governo e a prestação de contas à sociedade.

Essa estratégia também exige compreender que comunicação pública não se faz apenas nas redes sociais. É preciso reconhecer a importância de todos os meios, do rádio à televisão, das revistas aos jornais, dos outdoors aos frontlights e empenas, dos sites às plataformas digitais.

Cada canal tem sua linguagem, seu alcance e seu público. Uma comunicação eficiente respeita essas diferenças, adapta sua mensagem e, principalmente, respeita a inteligência do cidadão.

E existe uma condição da qual não abro mão: não se constrói reputação sólida comunicando aquilo que não é verdade.

Não adianta afirmar que o governo fez mais de 7.700 quilômetros de asfalto se as obras não existem. Não adianta dizer que a educação foi transformada se os indicadores não demonstram avanços. Não adianta anunciar a construção e o funcionamento de um hospital público de excelência se as imagens, a estrutura e os resultados não sustentam essa afirmação.

Comunicação não faz milagre. Ela pode dar visibilidade a uma boa gestão, mas não consegue sustentar indefinidamente uma realidade que não existe.

Quando aquilo que se comunica corresponde ao que o cidadão vivencia, a própria sociedade passa a ser uma importante defensora da reputação do governo.

E essa talvez seja uma das maiores forças de uma comunicação institucional bem estruturada.

Uma acusação sem fundamento encontra mais dificuldade para prosperar quando o cidadão conhece a realidade. Afinal, a escola reformada está ao lado da sua casa. Seu filho recebeu material escolar de qualidade. Ele conhece um estudante que teve a oportunidade de fazer um intercâmbio na Inglaterra, com todas as despesas pagas pelo Estado.

São experiências concretas que dão sustentação à mensagem institucional.

Não se trata de impedir críticas ou de desqualificar a oposição. Trata-se de construir uma reputação baseada em fatos, capaz de resistir a narrativas que não correspondem à realidade percebida pela população.

Com sete meses no cargo, Otaviano Pivetta mantém uma aprovação de 70% de sua gestão e venceu com 60% dos votos válidos.

Esses resultados ajudam a demonstrar algo que sempre defendemos: a credibilidade construída por uma gestão pode contribuir para o reconhecimento de quem assume sua continuidade.

Não é uma transferência automática de popularidade. É o resultado de um trabalho que constrói confiança na capacidade de realização do governo, para além da figura de quem ocupa o cargo.

E aqui está o ponto central da minha reflexão.

A comunicação de mandato não pode ser tratada como uma sucessão de campanhas publicitárias, peças bonitas ou publicações nas redes sociais. Ela precisa ter estratégia, método, objetivos claros e, principalmente, uma compreensão precisa do conceito que se pretende consolidar na sociedade ao final de cada ciclo de gestão.

É necessário saber de onde se parte, aonde se quer chegar e qual percepção se deseja construir ao longo do caminho. E essa percepção precisa estar sustentada por entregas reais.

A imagem de um governante pode ser fortalecida por uma boa comunicação. Mas é a reputação de uma gestão, construída com resultados, transparência e coerência, que oferece bases mais sólidas para o reconhecimento popular.

A comunicação não substitui uma boa gestão. Mas uma boa gestão que não sabe comunicar suas entregas corre o risco de não ter seu trabalho devidamente reconhecido.

E, quando existe planejamento, estratégia e compromisso com a verdade, o reconhecimento popular deixa de depender exclusivamente da imagem de uma pessoa e passa a estar associado à capacidade de realização de um governo.

Laice Souza é jornalista e advogada, atualmente ocupa o cargo de Secretária de Estado de Comunicação

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