Opinião
Amor que cura!
Opinião
Por Soraya Medeiros
Outro dia, no meio de uma dessas conversas rápidas de elevador — aquelas que começam com o clássico “tudo bem?” e morrem antes do terceiro andar — ouvi uma senhora dizer: “O mundo anda doente. Falta amor.” Ela falou olhando para o nada, como se dissesse mais pra si do que pra mim. Mas a frase ficou comigo o resto do dia.
Falta mesmo. Vivemos conectados por fios invisíveis, mensagens instantâneas e promessas de eternidade em aplicativos que duram segundos. Mas, no fundo, estamos cada vez mais sozinhos. A gente corre, entrega, performa. Mas e sente? Sente de verdade?
O amor virou produto escasso. E não falo daquele amor romântico de cinema, não. Falo do amor que se vê no jeito que você escuta alguém até o fim da frase. No olhar que acolhe sem julgar. No silêncio que respeita a dor alheia. No cuidado que se oferece mesmo sem aplauso.
Amar, hoje, é quase um ato de rebeldia. É resistir à pressa. É escolher ficar quando tudo convida a ir embora. É dar um passo atrás quando o ego quer avançar. Amar exige coragem. Não a dos grandes gestos, mas a do cotidiano: de se mostrar sem filtro, de pedir desculpa, de sustentar o afeto quando o outro falha.
Às vezes penso que amar, mesmo com tudo desmoronando lá fora, é a forma mais bonita de se manter inteiro. Porque o amor — aquele amor verdadeiro, silencioso e profundo — cura. Cura as rachaduras do peito, alivia a alma cansada, devolve sentido onde só havia cansaço.
E o mais curioso é que a ciência já sabe disso. Dizem que amar reduz o estresse, fortalece o corpo, prolonga a vida. Mas os avós já sabiam disso muito antes dos estudos. Sentiam na pele. E amavam sem precisar entender os porquês.
A pergunta que fica é: será que estamos amando de verdade? Ou só ensaiando afeto, como quem decora uma peça, sem nunca viver o papel?
Talvez o mundo precise menos de respostas e mais de amor com presença. Amor com atitude. Amor que se levanta da cadeira e faz o café, que segura a mão na hora do medo, que olha no olho sem medo de se perder ali. Esse amor que não faz barulho, mas transforma tudo por onde passa.
Se cada um de nós vibrasse um pouco mais de amor, talvez não curássemos o mundo inteiro. Mas, pelo menos, ele doeria menos. E, no fundo, talvez seja isso que a senhora do elevador quis dizer. Talvez o mundo só precise de mais gente disposta a amar — de verdade!
*Soraya Medeiros é jornalista com mais de 23 anos de experiência, possui pós-graduação em MBA em Gestão de Marketing. É formada em Gastronomia e certificada como sommelier.*
Opinião
Quando perder músculo também ameaça o cérebro
Durante muito tempo, falar em obesidade significava olhar apenas para o peso e para o IMC. Hoje sabemos que isso é insuficiente.
Duas pessoas com o mesmo peso podem ter condições completamente diferentes. Uma pode apresentar boa massa muscular e força preservada. A outra pode acumular gordura, especialmente abdominal, enquanto perde músculo e capacidade funcional.
Essa combinação é chamada de obesidade sarcopênica.
Ela reúne dois problemas importantes: excesso de gordura corporal e redução da massa ou da força muscular. Além de aumentar o risco de fragilidade, quedas, diabetes e doenças cardiovasculares, novas evidências mostram que essa condição também pode estar associada a maior risco de demência.
O que a ciência mostra :
Um grande estudo publicado na revista Clinical Nutrition avaliou dados de centenas de milhares de pessoas e analisou a relação entre composição corporal, força muscular e desenvolvimento de demência.
Os resultados mostraram que tanto a sarcopenia isolada quanto a obesidade sarcopênica estavam associadas a um risco maior de declínio cognitivo. Um dos achados mais relevantes foi a importância da força de preensão manual, medida por dinamometria.
Quanto menor a força e quanto maior sua redução ao longo dos anos ,maior foi o risco observado.
Isso reforça uma mudança importante na forma de avaliar a saúde: Não basta saber quanto peso uma pessoa perdeu. Precisamos saber quanto músculo e quanta força ela conseguiu preservar.
Emagrecer , nem sempre significa melhorar a saúde ?
Uma perda de peso mal conduzida pode incluir perda significativa de massa muscular, principalmente em pessoas mais velhas, sedentárias, submetidas a dietas muito restritivas ou a tratamentos sem acompanhamento adequado.
Mesmo com o avanço dos medicamentos para obesidade, o objetivo não deve ser apenas reduzir o número na balança. O tratamento precisa preservar músculo, reduzir gordura visceral, melhorar o metabolismo e manter a autonomia.
O paciente não deve apenas ficar mais leve. Deve ficar mais saudável, mais forte e funcionalmente mais capaz.
Por que o músculo influencia a saúde cerebral?
A relação entre músculo e cérebro é complexa, mas alguns mecanismos ajudam a explicá-la.
A perda muscular pode piorar a resistência à insulina, reduzir o gasto energético, aumentar o sedentarismo e favorecer inflamação crônica. Ao mesmo tempo, fatores como hipertensão, diabetes, apneia do sono e colesterol elevado afetam os vasos sanguíneos que irrigam tanto o coração quanto o cérebro.
Por isso, preservar músculo é muito mais do que uma questão estética. É uma estratégia de proteção metabólica, cardiovascular, funcional e possivelmente cognitiva.
Como enfrentar cientificamente esse problema ?
O primeiro passo é avaliar mais do que o peso. Circunferência abdominal, composição corporal, força de preensão, velocidade da marcha, capacidade funcional e exames cardiometabólicos ajudam a identificar riscos que o IMC isolado não mostra.
O treinamento de força deve ocupar posição central. Caminhar é importante, mas pode não ser suficiente para preservar ou recuperar massa muscular. Exercícios resistidos, progressivos e individualizados são fundamentais.
A alimentação também precisa garantir quantidade adequada de proteínas e energia, distribuídas ao longo do dia e ajustadas à idade, função renal, rotina e condição clínica.
Além disso, é essencial tratar fatores que aceleram a perda muscular e o envelhecimento vascular, como sedentarismo, diabetes, hipertensão, alterações do sono, tabagismo e obesidade visceral.
Envelhecer bem ,exige preservar força
A obesidade sarcopênica mostra por que o cuidado não pode ser fragmentado. Peso, metabolismo, coração, músculo e cérebro fazem parte do mesmo sistema.
Entendemos que o acompanhamento precisa ir além da balança. Avaliamos composição corporal, força, risco cardiovascular, alimentação, sono, rotina e capacidade funcional para construir estratégias verdadeiramente individualizadas.
Porque o objetivo não é apenas perder peso. É preservar autonomia, proteger o cérebro, fortalecer o corpo e construir saúde antes que a doença se manifeste.
Saúde não é sorte. É rotina.
Dr. Max Wagner de LimaCardiologista — CRM 6194 | RQE 2308 Prevenção cardiovascular, cardiometabolismo e medicina de antecipação.
Maristela Luft — CRN -16431Nutricionista e Mestre em nutrição clínica, composição corporal e cuidado cardiometabólico.
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