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O endereço da dignidade

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ARTIGO

Por Scheila Pedroso

Existe uma diferença enorme entre morar e ter onde morar.

Quem nunca precisou sair de uma casa às pressas talvez não perceba. Quem nunca viveu de favor talvez não saiba o peso de abrir a geladeira na casa de outra pessoa. Quem nunca contou os dias para o aluguel vencer talvez não entenda por que a palavra “casa” pode provocar tanto medo quanto esperança.

Moradia não é só parede.

É onde uma criança aprende qual é o caminho de volta.

É o endereço que uma mãe escreve na ficha da escola.

É onde alguém finalmente pode comprar uma mesa sem pensar se, no próximo mês, terá de carregá-la para outro lugar.

Durante anos trabalhando com habitação e assistência social, conheci histórias que dificilmente aparecem nos relatórios.

Famílias inteiras vivendo em lugares onde não deveriam estar. Áreas sujeitas a riscos, estruturas improvisadas, pessoas há anos morando de favor. Mulheres criando filhos dentro de espaços que nunca puderam chamar verdadeiramente de seus.

E aprendi uma coisa: ninguém sonha com “uma unidade habitacional”.

As pessoas sonham com uma casa.

Sonham com um quarto para os filhos. Com uma cozinha. Com uma porta que possam fechar sabendo que, do outro lado, existe alguma segurança.

Quando o poder público fala em habitação, portanto, deveria começar por aí.

Pela vida que existe antes da obra.

Claro que política habitacional precisa de terreno, projeto, infraestrutura, orçamento, regularização, água, energia, escola, transporte e planejamento urbano. Construir uma casa sem pensar na cidade que existe ao redor dela também é uma forma de abandonar uma família.

Por isso habitação nunca deveria ser tratada isoladamente.

Moradia conversa com assistência social. Com saúde. Com educação. Com mobilidade. Com emprego. Com segurança pública.

Uma família que conquista uma casa não recebe apenas algumas paredes.

Ela muda sua relação com o futuro.

Talvez essa seja uma das partes mais bonitas, e também mais difíceis, de trabalhar com habitação: perceber que aquilo que para a administração pública aparece como processo, matrícula, projeto ou contrato, para alguém representa o fim de uma espera de muitos anos.

Eu vi essa transformação acontecer.

Vi gente entrar em uma casa vazia e enxergar ali tudo aquilo que ainda nem existia. O sofá. A cama das crianças. O primeiro Natal. O aniversário. A marca de altura dos filhos crescendo na parede.

É por essas histórias que continuo acreditando que habitação precisa estar no centro das políticas públicas.

Mato Grosso cresce. Nossas cidades crescem. Os investimentos chegam, novos bairros surgem, a economia avança.

Mas uma cidade só pode dizer que está verdadeiramente crescendo quando as pessoas que ajudaram a construí-la também conseguem encontrar nela um lugar para viver com dignidade.

Porque desenvolvimento não pode ser apenas aquilo que vemos quando olhamos para o horizonte de uma cidade.

Desenvolvimento também é aquilo que acontece quando alguém coloca a chave na fechadura e, talvez pela primeira vez na vida, pode dizer:

“Essa casa é minha.”

*Scheila Pedroso* é arquiteta e urbanista e construiu parte importante de sua trajetória profissional e pública em Sinop, especialmente nas áreas de habitação, assistência social, planejamento urbano e políticas voltadas às famílias. Foi secretária municipal e esteve diretamente envolvida na implantação e ampliação de projetos habitacionais e de regularização fundiária no município. Atualmente é candidata a deputada estadual por Mato Grosso e tem a habitação e o desenvolvimento urbano entre as principais pautas de sua atuação.

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ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO

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Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.

Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.

Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.

O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.

Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.

O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.

Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.

Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.

Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.

* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário

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