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Do Discurso à Ação: O Verdadeiro Setembro Amarelo

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O Setembro Amarelo nasceu com um propósito claro: prevenir o suicídio e salvar vidas. Mas quando falamos de saúde mental, é fundamental compreender que o suicídio é apenas o ponto final de um longo e doloroso processo de adoecimento emocional. Focar apenas na consequência, deixando de olhar para os sinais que surgem ao longo desse percurso, significa tratar os sintomas sem abordar a causa. Se queremos que o Setembro Amarelo seja realmente eficaz, precisamos ampliar essa discussão e direcionar esforços para a saúde mental como um todo.

O adoecimento emocional não acontece da noite para o dia. Antes que alguém chegue a um estado de exaustão emocional severa, existem inúmeras etapas de sofrimento que poderiam ser prevenidas ou mitigadas com abordagens adequadas e tempestivas. Ansiedade, depressão, esgotamento, isolamento e outras condições psicológicas são sinais claros de que algo não está bem. Trabalhar na promoção da saúde mental e no acolhimento desses problemas desde o início não só reduziria as taxas de suicídio, mas também promoveria uma sociedade mais saudável e conectada emocionalmente.

Isso começa com educação emocional desde cedo. É urgente falar sobre saúde mental nas escolas, ensinar crianças e adolescentes a lidar com as emoções, com as frustrações e a reconhecer sinais de que algo não está certo – não só neles mesmos, mas também em seus colegas. Professores precisam ser capacitados para criar ambientes seguros, onde o diálogo seja bem-vindo e onde nenhuma dor passe despercebida. Em casa, famílias também devem ser conscientizadas sobre a importância do acolhimento e da empatia, fortalecendo vínculos e reduzindo o estigma sobre o sofrimento emocional.

Nas organizações, a saúde mental precisa deixar de ser tratada como um “clichê corporativo” e passar a ser uma prioridade genuína. Aquele laço amarelo preso ao uniforme não basta se os funcionários seguem em ambientes tóxicos, exaustivos e indiferentes à saúde emocional. Empresas precisam revisar práticas que promovem esgotamento, oferecer assistência psicológica, adotar políticas de flexibilização e promover diálogos francos sobre bem-estar emocional.

Outro ponto fundamental é o fortalecimento das políticas públicas de saúde mental. Mais investimento em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), acesso ampliado a tratamentos psicológicos e psiquiátricos pelo SUS e programas comunitários que levem suporte direto às populações mais vulneráveis são indispensáveis. A centralidade do Setembro Amarelo deve estar em ações concretas e contínuas, e não apenas em uma mobilização pontual no calendário.

Mas não basta apenas criar estruturas. É necessário treinar, capacitar e humanizar quem atua no campo da saúde mental. Psicólogos, médicos, educadores e até líderes comunitários precisam compreender que saúde emocional exige um olhar amplo e atento. Acolher alguém em sofrimento não é só ouvir é saber agir de maneira empática, conectada e, muitas vezes, técnica.

Por fim, a campanha precisa mudar seu foco. Suicídio é o “fim da linha”. A verdadeira prevenção começa muito antes, lá no início, quando a dor ainda é

pequena, mas já dá sinais de existir. Precisamos usar o Setembro Amarelo não só para falar de suicídio, mas também para promover diálogos sobre saúde mental ao longo de todo o ano. Ansiedade, estresse, depressão, burnout, tudo isso precisa ser levado em conta. Afinal, fortalecer as pessoas emocionalmente e reduzir os fatores de risco ao longo de suas vidas é a prevenção mais poderosa que existe.

O Brasil precisa de uma transformação cultural no modo como enxerga a saúde emocional. Quando a frase “você não está sozinho” deixar de ser apenas um lema de campanha e se tornar uma prática diária, então estaremos no caminho certo. Não é só sobre evitar mortes, mas sobre valorizar a vida. Uma vida que não seja apenas sobrevivência, mas autêntica, digna e cheia de possibilidades.

O potencial do Setembro Amarelo é enorme. Se unirmos esforços para trazer reflexão e ações reais, poderemos criar um movimento que toque vidas profundamente e de maneira duradoura. Não se trata de um mês, mas da construção de uma nova consciência sobre saúde mental que transforme em amor, esperança e vida.

 

Alan Barros – Escritor, ComunicaDOR e Palestrante de Saúde Mental, Ativista do Setembro Amarelo, Embaixador Nacional do Janeiro Branco.

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Biocombustíveis: o Antídoto Brasileiro frente à Crise Energética Global

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A história mostra que grandes crises energéticas costumam abrir caminhos para mudanças estruturais. Foi assim na década de 1970, quando o Brasil, pressionado pelo choque do petróleo, criou o Pró-Álcool e deu início a uma das cadeias produtivas mais eficientes do mundo. Agora, diante das incertezas no tabuleiro geopolítico e de uma nova escalada global dos combustíveis fósseis, o Brasil se encontra em uma posição singular, com a oportunidade de ampliar, avançar e consolidar uma maior participação dos biocombustíveis na matriz energética nacional.

O mundo vive um cenário de instabilidade energética. Enquanto os tambores de guerra ecoam no Oriente Médio e as tensões escalam em regiões vitais para o suprimento de energia, o preço do barril de petróleo voltou a assombrar as economias globais, superando os US$ 100, impulsionado pelo risco de interrupções no fornecimento global. Isso impacta diretamente o custo do diesel, do transporte, dos fertilizantes e, consequentemente, de toda a cadeia produtiva.

No Brasil, esse efeito já é sentido no campo. O diesel mais caro pressiona o frete, encarece a produção, diminui a margem e reduz a competitividade. Mas, ao contrário de muitos países, temos uma vantagem estratégica clara, que ameniza estes impactos e pode ganhar muito mais protagonismo, passando a ser um verdadeiro triunfo contra a volatilidade do mercado internacional: os biocombustíveis.

Esse não é um ativo trivial. É, hoje, um diferencial competitivo e um escudo econômico.

O Brasil construiu, ao longo de décadas, com visão e persistência, a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo. Dispomos de matéria prima abundante, integração da cadeia produtiva, alta tecnologia de processamento e capacidade de escala como poucos países, sendo ambientalmente mais responsáveis, despontando ainda na vanguarda da descarbonização.

O etanol e o biodiesel, por exemplo, deixaram de ser apostas para se tornarem pilares da matriz energética nacional, com misturas obrigatórias entre as mais significativas do planeta. Além disso, a maior parte da frota nacional está preparada para utilizar diferentes combinações de combustíveis, o que dá flexibilidade ao sistema. Contudo, precisamos avançar muito mais para não sermos vítimas da subutilização do nosso potencial.

Mato Grosso é um exemplo claro disso. O estado é líder na produção de grãos e maior produtor de etanol de milho do País. Para se ter uma ideia, na produção total de etanol, saímos de 2,44 bilhões de litros na safra 19/20 – com equilíbrio de produção de etanol de cana de açúcar e de milho e devemos alcançar na safra 26/27, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) cerca de 8,44 bilhões de litros, sendo 86% desse montante oriundo da produção de etanol de milho, o que representa um aumento exponencial de 500% somente deste produto, no período. Nesse ínterim, o estado também praticamente dobrou sua produção de biodiesel, alcançando um recorde de 2,30 bilhões de litros em 2025, consolidando-se como segundo maior produtor do Brasil. Ou seja, temos matéria-prima, escala e tecnologia para ampliar ainda mais nossa participação na matriz energética nacional. O que falta, portanto, não é capacidade produtiva, mas decisão política.

Nesse contexto, a necessidade da ampliação agora da mistura de biodiesel ao diesel para 20% – o chamado B20 e do etanol na gasolina para 35% (E35), deixa de ser apenas uma agenda setorial e passa a ser uma decisão estratégica de Estado. Elevar a mistura de biocombustíveis aos combustíveis fósseis é uma medida concreta, de impacto imediato. Isso reduz a dependência de combustíveis fósseis importados, protege a economia das oscilações internacionais e ainda fortalece a cadeia produtiva nacional, gerando emprego e renda, atraindo investimentos e promovendo o desenvolvimento regional.

Diante de um cenário internacional marcado por incertezas, o Brasil não pode hesitar. Ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz energética não é apenas desejável — é necessário. Sem contar que neste momento, por exemplo, o preço do óleo diesel A S10 importado está em R$ 6,40/litro, valor mais alto que o biodiesel, comercializado a R$ 5,15/litro, segundo dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o que reafirma mais um benefício direto, com redução do valor final para o consumidor. Ou seja, precisamos fazer escolhas que fortaleçam a produção interna, reduzam as nossas vulnerabilidades, protejam o consumidor e reafirmem a autonomia do país em um mundo cada vez mais volátil.

Se há uma lição a ser tirada da atual crise energética global é que: depender excessivamente de fontes externas e concentradas de energia é um risco estratégico.

Nosso país é um gigante energético que ainda não despertou completamente para o seu próprio potencial. Temos todas as condições de estabelecer alternativas reais ao petróleo, com competitividade de mercado e produção 100% nacional. O que falta é transformar isso em política de Estado, com previsibilidade e regulamentação, que garantam segurança aos investimentos para ampliação da capacidade produtiva com confiança e estabilidade.

O futuro da energia está sendo disputado agora. E, graças à sua trajetória, o Brasil já saiu na frente nesta competição. Temos o remédio nas mãos. Temos biocombustíveis. É hora de usar essa vantagem estratégica para proteger nossa economia e mostrar que o futuro, além de verde, é produzido em solo brasileiro!

• Por: Cidinho Santos, ex-senador por MT, empresário do agronegócio e CEO do Grupo MC Empreendimentos e Participações

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