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Os Kikitos e a emancipação do espectador

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Por Fabricio Carvalho

O triunfo do cuiabano Bruno Bini no 53º Festival de Cinema de Gramado, com o longa Cinco Tipos de Medo, é mais que uma conquista artística. É um marco simbólico para Mato Grosso, um estado historicamente invisibilizado nos grandes circuitos culturais do país. A vitória de melhor filme — acompanhada de outros três Kikitos — não apenas orgulha nossa terra, mas também convida a refletir sobre o poder emancipador da arte, à luz das ideias de Jacques Rancière, filósofo francês, cujo trabalho concentra-se, sobretudo, nas áreas de estética e política.

O longa nasceu de uma inquietação real. Ao ler em um jornal sobre uma comunidade de Cuiabá que se mobilizou para pagar a defesa de um criminoso preso — porque ele garantia a segurança local contra a violência de bairros vizinhos —, Bruno se espantou. Dali surgiu o curta Três Tipos de Medo, que evoluiu para o longa premiado. A obra coloca em cena conexões humanas muitas vezes imprevisíveis: pessoas que entram e saem de nossas vidas, deixando marcas, transformando destinos, revelando contradições de uma sociedade atravessada pela violência.

É aqui que o cinema se encontra com o pensamento de Rancière. Em O Espectador Emancipado, o filósofo mostra que assistir a uma obra não é um ato passivo. O espectador não recebe lições prontas, mas traduz o que vê em sua própria linguagem, associa imagens às suas experiências e compõe sentidos singulares.
Um filme como Cinco Tipos de Medo emancipa não porque explica a realidade urbana brasileira, mas porque a coloca em forma sensível, aberta, para que cada um de nós a interprete.

Nesse processo, o espectador se descobre agente: compara o dilema narrado no filme com situações vividas no cotidiano, questiona as fronteiras entre “herói” e “criminoso”, “proteção” e “ameaça”. Esse gesto de descoberta não significa que o público precise ser “transformado” pelo cinema. Como lembra Jacques Rancière, todo espectador já é capaz, já é inteligente: não há hierarquia entre palco e plateia, entre artista e público. A emancipação consiste justamente em reconhecer essa igualdade das inteligências, isto é, a capacidade de cada pessoa de traduzir o que vê a partir de seu próprio repertório, sem depender de uma consciência exterior que lhe diga o que pensar. O cinema, para Rancière, emancipa justamente quando embaralha fronteiras e nos devolve o poder de pensar sem intermediação hierárquica.

É isso que a obra de Bini faz — não nos oferece respostas, mas convoca reflexões.

A presença da talentosa cuiabana Bella Campos, como protagonista, e do músico Xamã, que estreia no cinema e foi premiado como ator coadjuvante, reforça ainda mais esse gesto coletivo de criação. Diferentes linguagens artísticas se encontram para dar corpo a uma narrativa que, no fundo, nos pertence a todos: a luta por viver e resistir em meio às ambiguidades da vida urbana.

Por isso, celebrar os Kikitos conquistados por Bruno Bini é também reafirmar a necessidade de apoio público e privado à cultura, como o próprio diretor destacou em seu discurso. O cinema emancipa não apenas indivíduos, mas coletividades, porque nos devolve a capacidade de imaginar juntos. Quando um filme de Mato Grosso alcança a principal premiação do cinema nacional, não é apenas o reconhecimento de um talento, mas a abertura de novas possibilidades de olhar, sentir e pensar.

Em tempos em que tanto se questiona a função da arte, a vitória de Cinco Tipos de Medo nos lembra do que Rancière nos ensina: todo espectador já é ativo, já é capaz, já é inteligente. O cinema apenas acende o fogo dessa potência. E quando esse cinema nasce de Mato Grosso, ele prova que a emancipação estética também pode ser um gesto de soberania cultural.

Fabricio Carvalho é maestro e membro da Academia Mato-Grossense de Letras (Cadeira n.º 23) – @maestrofabriciocarvalho

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Wilson Santos amplia críticas e relaciona caso Oi a contratos firmados durante gestão Mauro Mendes

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O deputado estadual Wilson Santos (PSD), presidente da CPI das Consignações na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, elevou o tom das críticas ao governo do ex-governador Mauro Mendes ao comentar os desdobramentos das investigações conduzidas pelo parlamento estadual. Durante entrevista ao PodRevirar, do Grupo Revirado MT, o parlamentar afirmou que a atual comissão é apenas a primeira de uma série de apurações que poderão atingir decisões administrativas adotadas ao longo da gestão estadual.

Questionado sobre as dificuldades enfrentadas para instalar a CPI e sobre possíveis tentativas de impedir o avanço das investigações, Wilson afirmou que não pretende se colocar na condição de vítima, mas admitiu enfrentar forte resistência política.

“Eu não gosto de me vitimizar. Eu aguento rojão. Eu sei o que eu passo, a minha esposa sabe, mas a gente segue em frente”, declarou.

Na avaliação do parlamentar, outras comissões parlamentares de inquérito deverão ser abertas nos próximos meses para investigar temas que, segundo ele, ainda apresentam questionamentos e dúvidas. Entre os assuntos citados estão a concessão da BR-163, a atuação da Nova Rota do Oeste e negociações envolvendo a empresa de telecomunicações Oi.

“O governo Mauro Mendes, agora ou mais tarde, ele será objeto de várias CPIs. Essa é apenas a primeira. Depois virá a CPI da BR-163, da Nova Rota Oeste, virá a CPI da Oi. Não tenha dúvida disso”, afirmou.

Durante a entrevista, Wilson voltou a questionar o acordo firmado entre o Estado e a Oi. Segundo ele, a Procuradoria-Geral do Estado já teria conhecimento, em março de 2024, de que uma ação rescisória movida pela empresa estaria prescrita após decisão relacionada ao caso no Supremo Tribunal Federal.

O deputado sustenta que, mesmo diante desse cenário, o governo continuou negociando e posteriormente efetuou um pagamento de R$ 308 milhões à companhia.

“Desde o dia 15 de março de 2024, o governo do Estado tinha ciência de que a ação rescisória estava nula. Mesmo assim, o Estado continuou negociando com a Oi”, declarou.

Wilson também levantou questionamentos sobre o fato de a empresa ter aberto mão de parte significativa dos valores discutidos na disputa judicial. Para ele, a operação não faria sentido sob a lógica empresarial tradicional.

“A Oi, num gesto incompreensível, irracional, no mundo capitalista, diz que abre mão de R$ 228 milhões e aceita ficar com apenas R$ 80 milhões daquele montante”, afirmou.

O parlamentar relacionou ainda a negociação a um contrato posterior firmado pela MTI, antiga Cepromat, com a própria Oi. Segundo sua versão, o acordo teria alcançado cerca de R$ 354 milhões e apresentado características que, na avaliação dele, merecem investigação.

“O quebra-cabeça vai fechando e a gente vai entendendo. A Oi não abriu mão de R$ 228 milhões. Após ela abrir mão disso, ela recebeu um contrato de R$ 354 milhões”, disse.

Wilson alegou ainda que existiam pareceres técnicos contrários à contratação e que empresas mato-grossenses teriam apresentado alternativas consideradas mais vantajosas financeiramente para a implantação da estrutura tecnológica prevista.

As declarações do deputado fazem parte de uma série de críticas direcionadas à condução de contratos públicos e acordos firmados durante a gestão Mauro Mendes. Até o momento, as afirmações apresentadas pelo parlamentar representam sua interpretação dos fatos e deverão ser objeto de eventual apuração pelos órgãos competentes e pelas comissões legislativas citadas.

A reportagem mantém espaço aberto para manifestação dos citados sobre as declarações apresentadas pelo deputado estadual.

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