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Entre a borracha e o corretor!

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Por Soraya Medeiros

Encontrei a borracha hoje, esquecida no fundo da gaveta, ao lado de uma caneta quase sem tinta. Aquela borracha branca, macia, com as bordas já cinzentas, sujas de incontáveis deslizes. E o pensamento veio, inevitável: quantas vezes na vida não desejamos uma borracha mágica? Uma que apagasse tudo, de verdade, sem deixar sequer a sombra teimosa no papel ou a rugosidade que o atrito impõe.

Na vida, assim como no papel, a gente erra. Há o deslize leve — uma palavra fora do lugar, uma vírgula que muda o sentido de uma frase inteira. E há aqueles erros que são verdadeiros borrões de nanquim, manchas que parecem gritar para o mundo: “Olhem, eu falhei!” É então que, com a borracha na mão, a pergunta ecoa: o que de fato se pode apagar e o que só nos resta aprender a corrigir?

A borracha é a tentação do recomeço imaculado. A ilusão sedutora de que o erro nunca existiu. Esfregamos, esfregamos, com a fé ingênua de recuperar o papel virgem. Mas sabemos, no fundo: mesmo após o esforço, o papel nunca mais será o mesmo. Ficam as marcas sutis, as cicatrizes da folha que sussurram: “Houve luta aqui.” Nossa alma é um papel antigo, que também guarda suas marcas. Por mais que queiramos apagar certas escolhas ou palavras lançadas ao vento, a experiência fica impressa em nós, camada sobre camada.

E então, temos o corretor. Ah, o corretor… Este é o instrumento da maturidade, da humildade que aceita a bagunça do processo. Diferente da borracha, o corretor não nega o erro; ele o reconhece, cobre-o com uma camada de branco e nos oferece o convite mais generoso: a chance de reescrever. Ele entende que o equívoco não foi um fim, mas parte do caminho. Sobre aquela base falha, podemos erguer um “sim” consciente, traçado com a tinta mais firme da experiência.

No fim das contas, navegamos esse eterno equilíbrio entre a borracha e o corretor. Avaliamos o que pode ser deixado para trás sem vestígios e o que, coberto pela camada opaca do aprendizado, pode ser transformado em uma versão mais sábia. É claro que carregamos lembranças que gostaríamos de apagar para que a dor cessasse de latejar. Mas existem histórias que, por mais tortuosas que tenham sido seus capítulos, merecem ser revisitadas não com arrependimento, mas com o carinho de quem compreendeu sua lição.

A vida não nos entrega folhas em branco todos os dias. Ela nos presenteia com o corretor. Oferece a chance de ajustar o traço, de refazer o caminho, de seguir escrevendo. E a beleza, meu amigo, está justamente aí: na coragem de reescrever, na sabedoria de honrar as marcas do percurso e na delicadeza de aceitar que uma história não precisa ser perfeita — apenas precisa ser verdadeira, com todas as suas camadas de tinta e branco.

Portanto, se hoje você se deparar com aquele erro que ainda o assombra, respire fundo. Talvez o que você precise não seja da borracha, ansiosa por sumir com o passado, mas sim do corretor — e de uma dose generosa de paciência para reescrever a própria história com mais amor — e, acima de tudo, com mais consciência.

*Soraya Medeiros é jornalista com MBA em Marketing, formação em Gastronomia e certificação como sommelier. Une comunicação, estratégia e enogastronomia.

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O problema não é Bolsonaro

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Desde as manifestações de 2013, uma parte expressiva da elite política brasileira parece incapaz de compreender a natureza da insatisfação que tomou conta das ruas.
Milhões de brasileiros saíram para protestar inicialmente contra o aumento das passagens de ônibus. Mas rapidamente ficou evidente que o problema era muito maior. A população expressava um sentimento difuso de revolta contra serviços públicos precários, corrupção, privilégios, burocracia excessiva e uma sensação crescente de distanciamento entre governantes e governados. 

As instituições ouviram o barulho das ruas, mas não compreenderam sua mensagem.

Em 2016, após anos de manifestações, a pressão popular contribuiu para o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em 2018, a mesma energia política levou à eleição de Jair Bolsonaro, um candidato visto como outsider, alguém que prometia romper com práticas que grande parte da população identificava como símbolos do sistema político tradicional.

Entretanto, mesmo após a vitória eleitoral, o conflito não diminuiu. Pelo contrário.

Desde os primeiros meses do novo governo, surgiram discussões sobre impeachment, disputas institucionais permanentes, judicialização intensa da política e um ambiente de confronto contínuo. Os apoiadores de Bolsonaro passaram a interpretar essas movimentações como uma tentativa de neutralizar, por outros meios, uma escolha que havia sido feita nas urnas.

Durante o processo eleitoral seguinte, a percepção de desequilíbrio se aprofundou entre milhões de brasileiros. Decisões judiciais envolvendo censura de conteúdos, remoção de perfis e restrições ao debate político foram vistas por muitos cidadãos como intervenções incompatíveis com a liberdade de expressão e com a igualdade de condições entre os competidores.

Após os acontecimentos de janeiro de 2023, milhares de pessoas foram investigadas, denunciadas ou presas. Independentemente da avaliação jurídica de cada caso, consolidou-se em parte significativa da sociedade a percepção de que não se tratava apenas da punição de crimes específicos, mas da criminalização de um movimento político inteiro.

É nesse ponto que muitos analistas continuam cometendo o mesmo erro.

Acreditam que Bolsonaro produz o fenômeno social. Talvez a relação seja inversa.

Talvez Bolsonaro seja consequência, e não causa.

Talvez ele tenha se tornado a principal expressão política de uma insatisfação que já existia antes dele e que continuará existindo depois dele.

Prender Bolsonaro não elimina as razões que levaram milhões de brasileiros às ruas em 2013. Não reduz a carga tributária. Não diminui a sensação de insegurança. Não resolve a percepção de impunidade. Não reduz a burocracia. Não aproxima as instituições do cidadão comum.

A questão central talvez não seja a polarização entre esquerda e direita.

Essa explicação, embora contenha elementos verdadeiros, parece insuficiente para explicar a profundidade do fenômeno.

O conflito que emerge repetidamente nas ruas parece refletir algo mais fundamental: a sensação crescente de que existe uma distância cada vez maior entre quem exerce poder e quem suporta o peso de suas decisões.

De um lado, uma estrutura estatal que cresce continuamente, amplia tributos, regula cada aspecto da vida social e concentra cada vez mais poder em Brasília.

De outro, cidadãos que sentem trabalhar mais, pagar mais impostos e receber menos retorno.

Essa tensão não desaparece com prisões, censura ou decisões judiciais. Também não desaparece com eleições isoladas.

Ela só pode ser enfrentada quando as instituições compreenderem que sua legitimidade não decorre apenas da legalidade formal, mas também da capacidade de responder às demandas da sociedade que representam.

Brasília precisa lembrar uma verdade elementar de qualquer democracia: o poder emana do povo.

O Brasil já enviou esse aviso em 2013.

Talvez a pergunta mais importante não seja por que milhões de brasileiros continuam revoltados.

Talvez a pergunta seja por que, depois de tantos anos, tantos ainda se recusam a ouvir.

Zé Medeiros é deputado federal e candidato ao senado por MT

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