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O TRABALHO ESCRAVO AINDA VIVE

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Lendo uma matéria num sitio eletrônico de Cuiabá (www.midianews.com.br ) de 31 de janeiro de 2026, com o destaque Força-tarefa resgatou 627 pessoas de trabalho escravo em 2025, fica-se estarrecido com o número de trabalhadores ainda encontrados nessa situação em Mato Grosso.

É verdade que por muito e muito tempo se diz que o trabalho escravo não acabou, ainda persiste, mesmo com as inúmeras organizações governamentais e não governamentais que fiscalizam a realização do trabalho no País.

Mas num Estado onde o agro negócio é pujante, onde produzimos a maior quantidade de soja, de algodão, de milho e outros produtos, onde se tem o maior rebanho bovino, do País, a responsabilidade social com relação ao homem do campo e dos trabalhadores rurais deveria ser primordial, ainda se encontram trabalhadores laborando em qualidade análoga a escravo.

Ambientes totalmente insalubres, quentes, sem ventilação, sem banheiro, sem camas, sem cozinhas, é inadmissível.

No País todo, conforme sitio da agênciabrasil.ebc.com.br, em 2025 foram encontrados 2.772 trabalhadores em condiçõesanálogas a escravos, sendo que quase 70% destes estavam sendo escravizados nos núcleos urbanos, nas cidades, do Brasil.

O setor da construção civil bateu recorde. De acordo com o MTE, a maior parte dos trabalhadores resgatados têm idade na faixa etária de 30 a 39 anos, são homens e com baixa escolaridade. Entre os resgatados, 83% se autodeclaram negros (pretos ou pardos).

Essa é a realidade do País que não pode ser escanteada, nem apagada.

Os estados que mais registraram resgate foram Mato Grosso, Bahia, Minas Gerais e São Paulo.

Portanto, não somos os primeiros apenas em feminicídio. Mas também em trabalho escravo.

O Brasil já criou vários mecanismos para combater o trabalho escravo: multas, indenizaçõese até uma lista suja com inclusão dos empregadores que se utilizam dessa horrenda prática. Mas parece que ainda não resolveu o problema.

De 2024 para 2025 houve um aumento de 38% no número de trabalhadores encontrados em situação de escravidão no Brasil.

Desde 1995 foram resgatadas 68 mil vítimas da escravidão. Número maior que grande parte da população de cidades de MT.

Estamos discutindo a alteração da jornada de 6X1 para 5X2 dos nossos trabalhadores. Discussão útile necessária.

Mas ainda temos trabalhadores que se ativam sem controle de jornada por até 18h por dia, sem intervalo para alimentação (alimentação?), sem sequer receberem o salário mínimo, morando em barracos que seriam inadmissíveis sequer para animais.

Portanto, todos, independentemente de prestarem ou não serviços públicos, temos a obrigação de coibir tais atitudes, repreendendo, denunciando e se revoltando com tais práticas.

RANCISCO ANIS FAIAD

Advogado e Professor

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ESTRUTURAS VIRAIS

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Considero pouco representativo, ou até mesmo um pouco inexpressivo, dizer-se existir um racismo estrutural. Adjetivar quase que em exclusivo uma única característica de nós próprios, suaviza demais a real dimensão estrutural da nossa sociedade. Entendo que essa adjetivação estrutural deva também ser feita sempre que falamos de impunidade, medo ou do desconhecimento que nos assolam. Procurando não ser interpretado como preconceituoso ou generalista, alego-me a desenvolver o assunto primeiramente na minha pessoa em particular. 

Eu sou estruturalmente racista? Não sei… Talvez nos genes, talvez por ter nascido em África, onde de imediato fui diagnosticado com essa terrível doença. Há vários anos que a combato diariamente aplicando um raciocínio dialético que me tranquiliza, mas que por si só não elimina o aparecimento de sintomas na minha área circundante. Com o seu elevado grau de agressividade a doença causa também em mim um sofrimento crônico com o qual, infelizmente, poderei ter de conviver até o final dos meus dias. 

Eu vivencio impunidade estrutural? Sim, vivencio. Em grande medida por nunca ter sido punido pelos meus progenitores que me educaram, de dentro para fora, em todas as oportunidades que tiveram ou criaram para esse efeito. Não obstante o fervor da impunidade fruto da juventude, a minha subversidade e o meu olhar sobre o alheio permitiu-me não ser excluído do convívio humano que tanto prezo. Hoje, sem o abrigo de qualquer organização, sigo impune igual a muitos outros bem diferentes de mim. 

Eu sofro de desconhecimento estrutural? Claro que sofro. Sofro em virtude de limitações cognitivas, sofro por ausência do chão da sala de aula e também pela imensidão de conteúdos desinteressantíssimos com que o meu espaço/tempo coletivo é sistematicamente desfocado. E suspeito que vá continuar a sofrer por inadaptabilidade congênita, por um ecletismo bem adubado e pelas desastrosas políticas de educação que se concretizam atabalhoadamente na lógica de que o conhecimento é um privilégio. 

Eu tenho medo estrutural? Tenho vários. Um deles é de que há semelhança do que acontece com o trabalho que perde direitos para um empreendedorismo de obrigação, a educação venha também ela a perder direitos para uma expressividade artificial. Outro medo estrutural é que possa não ser mais licito eu aprimorar-me e que dessa forma tenha de me substituir compulsoriamente. Não escondo tratar-se de dois receios recentes que adoraria conseguir repassar a terceiros em virtude deles me instigarem a critica e a liberdade. 

É-me agora mais fácil dizer que a esmagadora maioria dos cidadãos conhece na pele, o quanto nosso corpo ainda nos representa, vestido ou despido, bem como quanto também ainda toleramos escoar as nossas violências através da impunidade. Arrisco-me até a dizer que conseguimos entender que o desconhecimento e o medo caminham juntos desde os primórdios da humanidade e que agora os utilizamos como uma poderosa arma de subjugação. 

Pior que não se trata somente de racismo, impunidade, medo ou desconhecimento. O machismo, a displicência, a economia a que servimos, entre outros aspectos que materializamos num contexto sócio biológico, são todos eles resultado inequívoco de nós mesmos. Produto revelador do vírus autodestrutivo que somos e que se extingue sem exceder a sua singularidade. Esperando agora também não ser interpretado como apocalíptico, entendo oportuno dizer o quanto considero urgente chamar-se os jovens para mais perto de nós. Eles podem ajudar-nos a aliviar o que estamos a fazer para com eles. 

Rui Perdigão – Administrador, Geógrafo, Presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso.
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