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Valorizar os agentes de saúde é fortalecer o SUS

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Por Katiuscia Manteli

Todos os dias, milhares de profissionais percorrem ruas, visitam residências e orientam famílias em cada canto do país. Eles acompanham gestantes, auxiliam idosos e ajudam a prevenir doenças antes mesmo que elas cheguem aos hospitais. Muitas vezes, esse trabalho essencial acontece longe dos grandes holofotes da mídia, mas seu impacto real é sentido diretamente no coração de cada comunidade atendida.

Estamos falando dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e dos Agentes de Combate às Endemias (ACE), que representam o principal elo entre a população e o Sistema Único de Saúde (SUS). Eles são, na verdade, os verdadeiros olhos e ouvidos da saúde pública nos locais onde o Estado muitas vezes custa a chegar, desempenhando um papel social que vai muito além da medicina tradicional.

A recente aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 14/2021 pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado trouxe novamente para o centro do debate nacional a urgência de reconhecer essa categoria. Afinal, esses trabalhadores conhecem a realidade dos bairros como poucos e, em muitas regiões vulneráveis, representam o primeiro ou até mesmo o único contato do cidadão com a rede pública de atendimento.

A proposta prevê uma aposentadoria diferenciada para a classe, além de ampliar de forma significativa os mecanismos de proteção social. Trata-se de um direito legítimo para uma atividade que exige extrema dedicação, esforço físico diário sob sol e chuva, e um forte envolvimento humano e psicológico com as dores e carências da comunidade.

A pandemia da Covid-19 evidenciou ainda mais essa grande importância. Enquanto o mundo se isolava em busca de proteção, essas equipes continuaram atuando firmes na linha de frente, orientando famílias e auxiliando o poder público a enfrentar uma das maiores crises sanitárias da história recente. Por isso, a busca por melhores condições de trabalho e de previdência ganha tanta força no Congresso Nacional. Valorizar esse braço do SUS significa, na prática, fortalecer a atenção básica e o cuidado preventivo.

Além da PEC 14/2021, outra pauta de extrema relevância para a categoria é o Projeto de Lei 460/2019, que busca garantir o pagamento direto do Incentivo Financeiro Adicional (IFA) aos trabalhadores. A proposta assegura que esse recurso federal seja destinado exclusivamente aos profissionais, combatendo distorções locais e reforçando o reconhecimento de uma categoria fundamental para a promoção da saúde pública e para o fortalecimento do SUS.

Essa valorização também exige planejamento e responsabilidade na construção das políticas públicas. O fortalecimento da carreira precisa caminhar ao lado de um modelo de financiamento sustentável, com a participação tripartite da União, dos estados e dos municípios, para que os avanços conquistados sejam duradouros e beneficiem tanto os trabalhadores quanto a população atendida. A saúde pública brasileira precisa de servidores motivados e protegidos, mas também carece de previsibilidade e equilíbrio orçamentário para continuar operando com a máxima qualidade.

A PEC 14/2021 e o PL 460/2019 ampliam um debate que vai muito além de questões previdenciárias e remuneratórias. Eles colocam em pauta o reconhecimento de profissionais que estão diariamente nas comunidades, cuidando das pessoas e ajudando a prevenir problemas que, de outra forma, poderiam sobrecarregar e colapsar todo o sistema de saúde.

Valorizar quem cuida da nossa população não é apenas uma escolha política, é uma obrigação social. Garantir condições justas de trabalho, reconhecimento profissional e segurança jurídica e previdenciária para o exercício de suas funções significa investir diretamente em uma saúde pública mais eficiente, humana e próxima de quem mais precisa.

Katiuscia Manteli é jornalista e vereadora em Cuiabá (Podemos).

 

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ESTRUTURAS VIRAIS

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Considero pouco representativo, ou até mesmo um pouco inexpressivo, dizer-se existir um racismo estrutural. Adjetivar quase que em exclusivo uma única característica de nós próprios, suaviza demais a real dimensão estrutural da nossa sociedade. Entendo que essa adjetivação estrutural deva também ser feita sempre que falamos de impunidade, medo ou do desconhecimento que nos assolam. Procurando não ser interpretado como preconceituoso ou generalista, alego-me a desenvolver o assunto primeiramente na minha pessoa em particular. 

Eu sou estruturalmente racista? Não sei… Talvez nos genes, talvez por ter nascido em África, onde de imediato fui diagnosticado com essa terrível doença. Há vários anos que a combato diariamente aplicando um raciocínio dialético que me tranquiliza, mas que por si só não elimina o aparecimento de sintomas na minha área circundante. Com o seu elevado grau de agressividade a doença causa também em mim um sofrimento crônico com o qual, infelizmente, poderei ter de conviver até o final dos meus dias. 

Eu vivencio impunidade estrutural? Sim, vivencio. Em grande medida por nunca ter sido punido pelos meus progenitores que me educaram, de dentro para fora, em todas as oportunidades que tiveram ou criaram para esse efeito. Não obstante o fervor da impunidade fruto da juventude, a minha subversidade e o meu olhar sobre o alheio permitiu-me não ser excluído do convívio humano que tanto prezo. Hoje, sem o abrigo de qualquer organização, sigo impune igual a muitos outros bem diferentes de mim. 

Eu sofro de desconhecimento estrutural? Claro que sofro. Sofro em virtude de limitações cognitivas, sofro por ausência do chão da sala de aula e também pela imensidão de conteúdos desinteressantíssimos com que o meu espaço/tempo coletivo é sistematicamente desfocado. E suspeito que vá continuar a sofrer por inadaptabilidade congênita, por um ecletismo bem adubado e pelas desastrosas políticas de educação que se concretizam atabalhoadamente na lógica de que o conhecimento é um privilégio. 

Eu tenho medo estrutural? Tenho vários. Um deles é de que há semelhança do que acontece com o trabalho que perde direitos para um empreendedorismo de obrigação, a educação venha também ela a perder direitos para uma expressividade artificial. Outro medo estrutural é que possa não ser mais licito eu aprimorar-me e que dessa forma tenha de me substituir compulsoriamente. Não escondo tratar-se de dois receios recentes que adoraria conseguir repassar a terceiros em virtude deles me instigarem a critica e a liberdade. 

É-me agora mais fácil dizer que a esmagadora maioria dos cidadãos conhece na pele, o quanto nosso corpo ainda nos representa, vestido ou despido, bem como quanto também ainda toleramos escoar as nossas violências através da impunidade. Arrisco-me até a dizer que conseguimos entender que o desconhecimento e o medo caminham juntos desde os primórdios da humanidade e que agora os utilizamos como uma poderosa arma de subjugação. 

Pior que não se trata somente de racismo, impunidade, medo ou desconhecimento. O machismo, a displicência, a economia a que servimos, entre outros aspectos que materializamos num contexto sócio biológico, são todos eles resultado inequívoco de nós mesmos. Produto revelador do vírus autodestrutivo que somos e que se extingue sem exceder a sua singularidade. Esperando agora também não ser interpretado como apocalíptico, entendo oportuno dizer o quanto considero urgente chamar-se os jovens para mais perto de nós. Eles podem ajudar-nos a aliviar o que estamos a fazer para com eles. 

Rui Perdigão – Administrador, Geógrafo, Presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso.
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