Cultura
Justiça dá 30 dias para União iniciar obras do Cais do Valongo
Cultura
Uma decisão da Justiça Federal pode tirar do papel um projeto considerado fundamental para a preservação da memória africana no Brasil. A União terá que iniciar, com urgência, às obras no Edifício Docas André Rebouças, na região portuária do Rio de Janeiro, onde será instalado o Centro de Interpretação do Cais do Valongo.

A determinação estabelece que os responsáveis pelo imóvel têm prazo de 30 dias para assinar o contrato e garantir os recursos necessários para a execução dos trabalhos. Caso contrário, está prevista multa diária de R$ 10 mil.
A ação foi proposta pelo Ministério Público Federal, que recorreu à Justiça ao identificar o risco de descumprimento de obrigações definidas em uma ação civil pública apresentada em 2018. Segundo o MPF, o atraso ocorreu após o bloqueio de recursos do Fundo Nacional de Defesa dos Direitos Difusos, medida adotada pela Secretaria Nacional do Consumidor, ligada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Para o Ministério Público Federal, a retenção das verbas contraria diretamente uma decisão judicial anterior, que determinou à União e à Fundação Cultural Palmares a recuperação do edifício histórico e a implantação do centro de memória.
O órgão também destaca que a suspensão dos repasses ameaça todo o processo de contratação, já que a licitação foi concluída e homologada por cerca de R$ 77 milhões. Faltavam apenas a assinatura do contrato e a emissão da ordem de serviço para o início das intervenções.
A necessidade de acelerar os trabalhos é reforçada por um laudo da Defesa Civil do município do Rio. O documento aponta sérios problemas estruturais no prédio.
O Cais do Valongo foi o principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas. O local foi reconhecido em 2017 como Patrimônio Mundial pela Unesco, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.
* Com informações da Agência Brasil.
Cultura
Belchior completaria 80 anos nesta segunda-feira
Um dos maiores compositores do Brasil completaria 80 anos nesta segunda-feira (26). Antônio Carlos Gomes Belchior é autor de canções como “Apenas um rapaz latino-americano” e “Como nossos pais”, gravadas 50 anos atrás, que o consagraram na música popular brasileira.

O rapaz latino-americano nascido em Sobral, no norte do Ceará, em outubro de 1946, cantava em feiras na infância, aprendeu piano, foi poeta e repentista. Estudou em seminário e ingressou no curso de medicina – que abandonou para se dedicar à música.
Participou de festivais de música do nordeste e tocou ao lado de Fagner e Ednardo. Nos anos 70, Belchior se mudou para o sudeste e, entre o Rio de Janeiro e São Paulo, gravou discos como “Alucinação”, que completa 50 anos este ano e traz sucessos regravados por Elis Regina. Em versos como “o passado é uma roupa que não nos serve mais”, Belchior soube cantar as questões do seu tempo, com uma crítica ao clima de repressão da ditadura militar na letra de “Velha roupa colorida”.
O poeta cronista falava de um futuro e da vida em sociedade em melodias que passeavam entre a MPB, o rock e a música tradicional nordestina.
A filha caçula do músico, a cantora Vannick Belchior, homenageia o pai em shows e no seu álbum de estreia “Meu nome é Cem”, que traz composições dele. Vannick relembra a presença marcante de Belchior nos palcos e na vida.
“Eu lembro de uma vez que ele tava com uma camisa vermelha e uma calça verde e nossa, ele dava pirueta e fazia movimentos de karatê no palco e o público ensandecido. Completamente emocionado ali com a performance dele, única. Eu acho que para mim, como filha, o principal legado do meu pai é realmente essas amizades que ele deixou, as memórias, uma obra que me ensina muito enquanto mulher, enquanto ser humano, enquanto cidadã”.
Belchior morreu em 2017, aos 70 anos, vítima de um rompimento da artéria aorta. Nos últimos dez anos de vida, o músico viveu recluso entre o Uruguai e cidades do Rio Grande do Sul. Ele abandonou a vida pública, o que gerou várias teorias sobre seu desaparecimento. Em busca de respostas, os jornalistas Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti escreveram o livro “Viver é melhor que sonhar”. Chris Fuscaldo conta o que descobriram no percurso.
“Belchior sempre foi esse homem que olhava para esse lugar do exílio com um certo romantismo. Foi seminarista quando jovem. E se isolou do mundo por um bom tempo. Então, o Belchior sempre teve esse desejo de exílio. A gente vê em muitas letras de Belchior, essas possibilidades de experiências com o isolamento, com a mudança de vida. Em Velha Roupa Colorida, ele fala ‘o que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo, precisamos rejuvenescer’. A gente fica sempre na dúvida se Belchior voltaria em algum momento, porque ele faleceu, então, a gente não tem essa resposta”.
O livro “Viver é melhor que sonhar” ganhou uma adaptação para o cinema, que deve estrear em dezembro. Também entre as homenagens ao artista está o documentário “Alucinação”, em cartaz na Mostra de Cinema de São Paulo.
Nos versos de “Sujeito de Sorte”, Belchior cantou que “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. O músico que partiu há quase dez anos, segue muito vivo nas celebrações de sua obra e na memória evocada por seu cancioneiro.
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