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Doação de sangue: quando a solidariedade se transforma em tratamento

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Na medicina, convivemos diariamente com avanços tecnológicos, novos medicamentos e procedimentos cada vez mais sofisticados. No entanto, existe um recurso indispensável e que ainda não pode ser substituído: o sangue humano. Ele continua sendo um elemento fundamental para salvar vidas e garantir a recuperação de milhares de pacientes.

Em hospitais e unidades de saúde, a necessidade de sangue é permanente. Pessoas submetidas a cirurgias complexas, vítimas de acidentes, pacientes em tratamento contra o câncer, portadores de doenças hematológicas e inúmeras outras condições dependem da disponibilidade de hemocomponentes para seguir seus tratamentos com segurança.

Por trás de cada transfusão realizada existe um gesto simples, mas de valor incalculável: a decisão de alguém em doar. É uma atitude que exige poucos minutos, mas que pode representar uma nova oportunidade para quem enfrenta um momento crítico de saúde.

A sociedade costuma associar a doação de sangue a situações emergenciais. Embora essas ocasiões realmente demandem grande mobilização, a realidade é que a necessidade é diária. Os hemocentros precisam manter estoques regulares durante todo o ano para atender uma demanda contínua e imprevisível. A vida não espera campanhas emergenciais nem datas específicas para precisar de ajuda.

Por isso, é importante fortalecer a cultura da doação regular. Quando a população compreende que doar sangue deve fazer parte de um compromisso permanente com a coletividade, o sistema de saúde ganha mais capacidade de resposta, os tratamentos se tornam mais seguros e os pacientes encontram maior suporte nos momentos em que mais precisam.

Também é fundamental destacar que uma única doação pode beneficiar várias pessoas. Isso ocorre porque o sangue coletado é separado em diferentes componentes, que podem atender necessidades distintas. Na prática, um único doador contribui para ampliar as chances de recuperação de diversos pacientes.

Como médico, acredito que cuidar da saúde vai além do consultório, do hospital ou dos procedimentos clínicos. Cuidar da saúde também significa estimular atitudes capazes de proteger vidas antes mesmo que uma emergência aconteça. A doação de sangue é um dos exemplos mais claros dessa responsabilidade coletiva.

É com esse espírito que a Unimed Cuiabá promove, no próximo dia 24 de junho, uma campanha de doação de sangue em parceria com o Instituto de Hematologia do Centro-Oeste (IHENCO). A ação será realizada das 8h às 16h, na sede da Asfunimed, reunindo cooperados, colaboradores, beneficiários dos programas Viver Bem e a comunidade. Mais do que uma campanha, trata-se de um convite para que cada pessoa possa participar ativamente de uma corrente de cuidado, solidariedade e preservação da vida.

*Carlos Bouret, diretor-presidente da Unimed Cuiabá e médico cooperado

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ESTRUTURAS VIRAIS

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Considero pouco representativo, ou até mesmo um pouco inexpressivo, dizer-se existir um racismo estrutural. Adjetivar quase que em exclusivo uma única característica de nós próprios, suaviza demais a real dimensão estrutural da nossa sociedade. Entendo que essa adjetivação estrutural deva também ser feita sempre que falamos de impunidade, medo ou do desconhecimento que nos assolam. Procurando não ser interpretado como preconceituoso ou generalista, alego-me a desenvolver o assunto primeiramente na minha pessoa em particular. 

Eu sou estruturalmente racista? Não sei… Talvez nos genes, talvez por ter nascido em África, onde de imediato fui diagnosticado com essa terrível doença. Há vários anos que a combato diariamente aplicando um raciocínio dialético que me tranquiliza, mas que por si só não elimina o aparecimento de sintomas na minha área circundante. Com o seu elevado grau de agressividade a doença causa também em mim um sofrimento crônico com o qual, infelizmente, poderei ter de conviver até o final dos meus dias. 

Eu vivencio impunidade estrutural? Sim, vivencio. Em grande medida por nunca ter sido punido pelos meus progenitores que me educaram, de dentro para fora, em todas as oportunidades que tiveram ou criaram para esse efeito. Não obstante o fervor da impunidade fruto da juventude, a minha subversidade e o meu olhar sobre o alheio permitiu-me não ser excluído do convívio humano que tanto prezo. Hoje, sem o abrigo de qualquer organização, sigo impune igual a muitos outros bem diferentes de mim. 

Eu sofro de desconhecimento estrutural? Claro que sofro. Sofro em virtude de limitações cognitivas, sofro por ausência do chão da sala de aula e também pela imensidão de conteúdos desinteressantíssimos com que o meu espaço/tempo coletivo é sistematicamente desfocado. E suspeito que vá continuar a sofrer por inadaptabilidade congênita, por um ecletismo bem adubado e pelas desastrosas políticas de educação que se concretizam atabalhoadamente na lógica de que o conhecimento é um privilégio. 

Eu tenho medo estrutural? Tenho vários. Um deles é de que há semelhança do que acontece com o trabalho que perde direitos para um empreendedorismo de obrigação, a educação venha também ela a perder direitos para uma expressividade artificial. Outro medo estrutural é que possa não ser mais licito eu aprimorar-me e que dessa forma tenha de me substituir compulsoriamente. Não escondo tratar-se de dois receios recentes que adoraria conseguir repassar a terceiros em virtude deles me instigarem a critica e a liberdade. 

É-me agora mais fácil dizer que a esmagadora maioria dos cidadãos conhece na pele, o quanto nosso corpo ainda nos representa, vestido ou despido, bem como quanto também ainda toleramos escoar as nossas violências através da impunidade. Arrisco-me até a dizer que conseguimos entender que o desconhecimento e o medo caminham juntos desde os primórdios da humanidade e que agora os utilizamos como uma poderosa arma de subjugação. 

Pior que não se trata somente de racismo, impunidade, medo ou desconhecimento. O machismo, a displicência, a economia a que servimos, entre outros aspectos que materializamos num contexto sócio biológico, são todos eles resultado inequívoco de nós mesmos. Produto revelador do vírus autodestrutivo que somos e que se extingue sem exceder a sua singularidade. Esperando agora também não ser interpretado como apocalíptico, entendo oportuno dizer o quanto considero urgente chamar-se os jovens para mais perto de nós. Eles podem ajudar-nos a aliviar o que estamos a fazer para com eles. 

Rui Perdigão – Administrador, Geógrafo, Presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso.
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