Opinião

O mesmo de sempre na advocacia

Publicado em

Opinião

Por Leonardo Stábile

Em um mundo onde a inteligência artificial redige peças, o processo eletrônico é a regra e a informação jurídica se multiplica em velocidade vertiginosa, a sensação de que tudo muda, o tempo todo, é quase esmagadora.

Recentemente, a leitura de “O mesmo de sempre: Um guia para o que não muda”, de Morgan Housel, acendeu uma luz sobre essa ansiedade. O autor nos convida a focar não na imprevisibilidade do futuro, mas nas verdades universais, aqueles pilares que resistem ao teste do tempo.

Com quase oito anos de prática profissional, e tendo a fortuna de ser filho de advogados (meu pai, com seus 40 anos de carreira, é a minha melhor escola de persistência e ética), sou testemunha ocular de grandes transformações na forma de advogar.

Vi a migração do papel para o digital, do balcão da secretaria para as salas de audiência virtuais. No entanto, é nos ensinamentos do meu pai e nos ritos diários da boa advocacia que percebo: o essencial, o que define a excelência na nossa profissão, permanece inabalável.

Não pretendo aqui emitir juízos de valor nem de superioridade, mas sim, com a consciência de quem está sempre aprendendo, pontuar o que, na minha visão, é “o mesmo de sempre” que sustenta a boa advocacia e a praxe forense, independentemente da tecnologia ou da lei que venha a mudar:

1. A confiança
A advocacia é, no fundo, uma relação de confiança. Ela se constrói na capacidade de o advogado ser o depositário das preocupações mais íntimas do cliente e de zelar por seus interesses com a máxima diligência.

No fórum, a confiança é o lastro da palavra: a boa-fé e a lealdade processual não são apenas deveres éticos, são atalhos para a Justiça. Um advogado que cumpre sua palavra, que atua com lealdade processual e que é transparente com o juízo e com a parte contrária constrói reputação e credibilidade, ativos que nunca se desvalorizam.

2. O rigor técnico
O PJE acelerou o rito, mas não diminuiu a necessidade do estudo aprofundado. A inteligência artificial pode redigir, mas não pode (ainda) compreender a nuance de um caso singular, o espírito da lei ou a intenção por trás de um precedente.

A boa advocacia exige que o profissional seja um artesão jurídico, que investe energia e tempo na construção de sua tese, analisando a prova e escrevendo com clareza e objetividade. O rigor na pesquisa e na argumentação é o que distingue o advogado que realmente persuade e alcança a excelência.

3. A persistência
Na advocacia, as mudanças são lentas, as vitórias custosas e os reveses frequentes. A capacidade de suportar a incerteza, de insistir após uma decisão desfavorável e de manter o foco no objetivo final do cliente, sem ceder ao desânimo ou à soberba, é uma virtude atemporal.

A resiliência não está nos códigos, mas no temperamento do bom profissional.

4. O respeito
O tratamento dispensado aos colegas, aos servidores, aos magistrados e, também, à parte adversa, é a medida do profissional.

A urbanidade, o decoro e o respeito às prerrogativas e à liturgia forense, longe de serem formalidades vazias, são o alicerce que mantém a engrenagem da Justiça funcionando.

É a ética que garante a dignidade da profissão, e isso, definitivamente, não mudará.

Em suma, as ferramentas mudam, as leis se atualizam e o ritmo se acelera, mas a natureza humana dos conflitos e a essência da defesa permanecem as mesmas.

O que realmente importa e o que nos fará relevantes nas próximas décadas não é o domínio da tecnologia mais recente, mas sim a fidelidade aos princípios de confiança, rigor técnico, persistência e respeito.

Estes são os fundamentos que meu pai me ensinou através do exemplo e que, humildemente, acredito que Morgan Housel encontraria como “O Mesmo de Sempre” na nossa nobre e essencial profissão.

Leonardo Stábile é advogado e conselheiro da OAB-MT

COMENTE ABAIXO:
Propaganda

Opinião

Valorizar quem serve é fortalecer o serviço público

Publicados

em

Quando pensamos na Assembleia Legislativa, é natural lembrarmos dos deputados, das votações e das decisões tomadas em plenário. Mas você já parou para pensar em quantas pessoas trabalham para que tudo isso aconteça?

Quem chega à Assembleia encontra profissionais na recepção, na segurança e no atendimento. Pelos corredores, há quem cuide da limpeza, prepare o café e organize os espaços. Nos gabinetes, na comunicação e nos setores administrativos, outros servidores trabalham para que a Casa funcione.

Antes de um projeto chegar à votação, muita gente já contribuiu com ele. Antes de uma demanda chegar ao deputado, alguém já ouviu, orientou e ajudou a encontrar um caminho.

A vida pública me ensinou que ninguém faz nada sozinho. Comecei minha trajetória política em Jaciara, como vereador e, depois, prefeito por dois mandatos, entre 2005 e 2012. Foi ali que compreendi o valor de quem dedica sua vida ao serviço público.

Aprendi que não basta cobrar resultados. É preciso ouvir, oferecer condições de trabalho e reconhecer esforços. Durante nossa gestão, buscamos valorizar o funcionalismo, inclusive com reajustes salariais anuais acima da inflação.

Levei esse aprendizado para outras funções, como deputado estadual, secretário de Assistência Social e chefe da Casa Civil. Cada experiência reforçou uma certeza: por trás de cada serviço público, existem pessoas cuidando de pessoas.

Na assistência social, acompanhei profissionais que acolhem famílias em situação de vulnerabilidade. Muitas vezes, são eles que escutam primeiro, oferecem orientação e ajudam a transformar realidades.

Ao assumir a presidência da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, procurei me aproximar dos servidores, ouvir suas demandas e compreender os desafios de cada setor. Porque valorizar também significa conhecer a realidade de quem trabalha diariamente pela população.

Esse diálogo tem se transformado em ações. Avançamos com reajustes salariais acima da inflação, propostas de Funções de Confiança exclusivas para servidores efetivos e melhorias na estrutura, como a reorganização do estacionamento, com dois pavimentos reservados aos profissionais da Casa.

Outro compromisso é a atualização do Plano de Cargos, Carreiras e Subsídios (PCCS), cuja última grande reestruturação ocorreu há mais de 20 anos. Queremos construir essa proposta com a participação da gestão, do sindicato e dos servidores.

Também iniciamos os levantamentos necessários para um novo concurso público, identificando as demandas dos setores e planejando o fortalecimento do quadro funcional.

Sei que ainda temos desafios. Valorizar o servidor não se resume a reajustes ou melhorias administrativas. É um compromisso permanente, construído com respeito, diálogo e reconhecimento.

Neste Dia do Servidor Público, quero agradecer a quem está na linha de frente do atendimento e também a quem trabalha longe dos olhos da população. Cada função tem sua importância para que os serviços cheguem a quem precisa.

Depois de tantos anos na vida pública, tenho cada vez mais certeza de que uma instituição não é feita apenas por quem a dirige, mas principalmente por quem dedica seu trabalho a ela.

Parabéns a todos os servidores públicos de Mato Grosso. Que o reconhecimento esteja presente não apenas nesta data, mas nas condições e no respeito que oferecemos todos os dias. 

Max Russi é deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso e presidente do Podemos em Mato Grosso

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

POLÍTICA

POLÍCIA

ESPORTES

ENTRETENIMENTO

MAIS LIDAS DA SEMANA