Política
IFI: próximo presidente da República terá de enfrentar decisões fiscais difíceis
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A situação das contas públicas brasileiras vai exigir decisões difíceis do presidente da República a ser eleito neste ano. É o que indica o Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF 113), divulgado nesta quinta-feira (25) pela Instituição Fiscal Independente (IFI). O documento projeta que a dívida bruta do governo, hoje em 80,1% do PIB, pode chegar a 115% do PIB em 2036 — patamar considerado pelo próprio relatório como “um nível de endividamento extremamente elevado”.
A IFI aponta, mantidas as atuais diretrizes e regras orçamentárias e fiscais, um cenário preocupante e desafiador para o próximo mandato presidencial.
— As projeções indicam que a atual regra do arcabouço fiscal, que definiu um limite de despesa para a União, tende a perder eficácia a partir de 2028. No próximo mandato presidencial, vamos precisar ter discussões importantes em relação à trajetória do gasto primário. Isso envolve discussões duras, difíceis, porque afetam aposentadorias, salários de servidores públicos e benefícios assistenciais — alertou Alexandre Andrade, diretor da IFI, em entrevista à Agência Senado, à Rádio Senado e à TV Senado.
Para estabilizar a dívida pública, a IFI calcula que seria necessário gerar um superávit primário — receitas primárias maiores que as despesas primárias —de 2,1% do PIB por ano — algo que o Brasil não consegue produzir nem no cenário mais otimista antes de 2029. No cenário base, a dívida bruta sobe de 80,1% do PIB hoje para 82,5% em 2026, ultrapassa 100% em 2032 e chega a 115% em 2036.
As projeções da IFI divergem das apresentadas pelo governo no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 (PLN 2/2026), consideradas mais otimistas. Mesmo com as revisões favoráveis trazidas pelo aumento de arrecadação previsto com royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras, a IFI mantém o alerta: sem reformas no perfil dos gastos obrigatórios, nenhuma regra fiscal conseguirá conter a trajetória da dívida.
— Hoje, o quadro fiscal brasileiro indica um crescimento das despesas que não consegue ser compensado pelo aumento das receitas — reforçou Andrade.
Despesas crescem mais do que as receitas
O nó fiscal brasileiro tem raiz conhecida. Cerca de metade das despesas da União está indexada ao salário mínimo: benefícios previdenciários, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e seguro-desemprego. A retomada da política de valorização do salário mínimo acima da inflação, a partir de 2023, pressiona diretamente essa parcela do Orçamento, segundo a IFI. Somam-se ainda a reativação dos pisos constitucionais da saúde e da educação e o envelhecimento da população, que empurra as despesas previdenciárias para cima ano após ano, aponta o relatório.
As despesas primárias — gastos não financeiros do estado, com o funcionamento do Estado e com políticas públicas, por exemplo — devem atingir 19,2% do PIB em 2026 e seguir crescendo até 19,9% do PIB em 2032. Enquanto isso, a receita primária líquida — recursos arrecadados com tributos e outras receitas não financeiras, após as deduções legais, destinados a financiar as despesas primárias — caminha na direção oposta: de 18,9% do PIB em 2026 para 18,3% no médio prazo. O resultado são déficits primários recorrentes, projetados pela IFI para todo o horizonte até 2036 — tendência que já se arrasta desde 2014.
— Se o governo gasta mais do que arrecada, vai ter déficit. É isso que os números indicam — resumiu.
Petróleo
A revisão das projeções em relação ao divulgado em dezembro de 2025 teve como base o aumento dos preços do petróleo, provocado pelo agravamento do conflito no Oriente Médio desde fevereiro. Para as contas públicas de 2026, o efeito é positivo: o governo deve arrecadar mais com royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras, o que permitirá cumprir a meta fiscal do ano com uma folga de R$ 18,2 bilhões acima do limite mínimo.
— O ganho de arrecadação vai ser muito benéfico para o cumprimento da meta de resultado primário de 2026 — explicou Andrade.
Segundo ele, o número ficou até mais favorável do que a projeção divulgada pelo próprio Poder Executivo no relatório bimestral de maio. Mas o alívio é passageiro. Para a economia como um todo, petróleo mais caro significa inflação mais alta, especialmente via combustíveis e frete rodoviário, contrapôs o economista.
— São muitas incertezas. Se o preço do barril ficar alto por muito tempo, isso afeta a inflação, e a inflação reduz o poder de compra das famílias. A inflação mais alta faz com que o Banco Central tenha de manter os juros elevados por mais tempo, o que esfria a atividade econômica. Então, o efeito para a economia é deletério — afirmou.
Economia cresce, mas desacelera
A IFI projeta crescimento do PIB de 2% em 2026, com desaceleração para 1,8% em 2027. A inflação deve fechar 2026 em 5% — acima da meta —, pressionada pela inflação de serviços, hoje em torno de 6% ao ano, e pelos efeitos do petróleo. A taxa Selic deve encerrar 2026 em 14% ao ano, recuando para 12% em 2027. Hoje, a taxa está em 14,5%.
“O comportamento da economia reflete, além do cenário externo adverso, os efeitos contraditórios entre a política monetária restritiva, o mercado de trabalho aquecido e os estímulos à demanda e ao crédito, a partir de diversas iniciativas governamentais”, aponta o relatório, também assinado pelo diretor-executivo da IFI, Marcus Pestana.
Isenção do IR
O documento ainda chama a atenção para a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, em vigor desde janeiro de 2026. A medida representa uma renúncia fiscal estimada entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões por ano. O governo apresentou como contrapartida uma tributação maior sobre rendimentos acima de R$ 50 mil mensais, mas os dados até maio mostram que a compensação ainda não se materializou na prática.
— As incertezas nessa questão residem na efetividade da compensação, se ela realmente vai ocorrer. Porque sabemos que profissionais e pessoas com esse nível de rendimento costumam se organizar como pessoas jurídicas — médicos, advogados, profissionais liberais, engenheiros. Assim, conseguem encontrar brechas na legislação para recolher menos tributos — ponderou Andrade.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Política
GAFFFF 2026: diferentes olhares apontam os desafios que movem o agronegócio brasileiro
Nos dias 1º e 2 de outubro de 2026, São Paulo recebeu mais uma edição do Global Agribusiness Festival (GAFFFF), considerado o maior festival mundial de conteúdo e cultura do agronegócio.
Com uma programação que combina conteúdo, negócios, entretenimento e gastronomia, o GAFFFF é estruturado a partir de quatro pilares, representados pelos quatro “Fs” do nome: Forum, Fair, Fun e Food. O Forum concentra debates, palestras e painéis com especialistas e autoridades; o Fair promove a aproximação entre empresas, startups e produtores; o Fun leva entretenimento ao público; e o Food apresenta experiências relacionadas à gastronomia.
Mais do que apresentar tendências e tecnologias, o evento também se tornou um espaço para ouvir diferentes perspectivas sobre os desafios enfrentados pelo agronegócio brasileiro.
Para Gilvania Rufino, Líder Regional de Mato Grosso da XP Investimentos, “o grande desafio do agro hoje é transformar a complexidade do agronegócio em planejamento financeiro.” É justamente nesse ponto que, para ela, eventos como o GAFFFF ganham importância. Ao colocar lado a lado produtores, instituições financeiras, empresas e especialistas, o festival possibilita que diferentes partes da cadeia se aproximem e compreendam melhor as necessidades umas das outras.
A dimensão do potencial brasileiro esteve presente na avaliação de José Luiz Tejon, jornalista, publicitário, professor, escritor e conferencista atuante no agronegócio. Ao analisar o cenário atual, Tejon chama atenção para uma característica que acompanha o Brasil há décadas: a capacidade de produção e a posição estratégica que o país ocupa no agronegócio mundial. No entanto, “Para mim, o maior desafio do agro hoje é transformar todas as possibilidades em realidade”, afirma José Tejon.
A reflexão parte da própria trajetória do agronegócio brasileiro. Tejon ressalta que o país construiu, ao longo dos últimos 50 anos, conhecimento, tecnologia e capacidade produtiva que permitiram ao Brasil alcançar uma posição de destaque no mercado internacional.
Na visão do especialista, entretanto, ter potencial não é suficiente. É preciso transformar aquilo que o país possui em oportunidades efetivas, não apenas para o produtor e para as empresas, mas também para o desenvolvimento do Brasil e para sua participação no cenário mundial.
Enquanto alguns dos desafios estão relacionados à gestão e à capacidade de transformar oportunidades em resultados, Romeu Ciochetta, produtor rural, chama atenção para uma questão que está cada vez mais presente no debate sobre o setor: a comunicação.
Para ele, o agronegócio precisa comunicar melhor à sociedade o que produz, como trabalha e a importância de sua atividade. Mais do que falar sobre o tamanho do setor, é necessário mostrar o trabalho realizado diariamente por produtores e profissionais que integram toda a cadeia. “Para mim, o maior desafio do agro hoje é a comunicação. Comunicar a todos sobre o que o agro faz, e que faz bem feito”, afirmou Ciochetta.
A percepção do produtor aponta para a necessidade de aproximar o consumidor e a sociedade da realidade do campo. Em um momento em que o agronegócio está presente em discussões econômicas, ambientais e sociais, comunicar de maneira clara aquilo que é produzido e como esse processo acontece se torna uma ferramenta importante.
A realidade do agronegócio, entretanto, não se limita àquilo que acontece dentro das propriedades rurais. Para Antonielly Rottoli, idealizadora do Mulheres do Agro de Rondônia, existem desafios estruturais que precisam ser enfrentados para que o setor continue crescendo.
Entre eles, ela destaca três pontos: logística, infraestrutura e empregabilidade. Nesse contexto, Antonielly vê o GAFFFF como um ambiente que vai além dos grandes debates. Para ela, o evento representa uma oportunidade de acesso a informações, tecnologias e, principalmente, de construção de relacionamentos.
O agro brasileiro já demonstrou sua capacidade de crescer e conquistar espaço no mundo. O desafio agora, como apontaram os participantes, é transformar todo esse potencial em realidade, fazendo com que o desenvolvimento do setor seja acompanhado por mais conexão, informação, planejamento e oportunidades.
Andreia Azevedo
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