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Violência contra mulheres em Mato Grosso: quando a omissão se torna parte do problema

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 Os feminicídios que marcaram os últimos dias de novembro, as mortes de Júlia Nascimento Barbieri em Guarantã do Norte e de Gislaine Ferreira da Silva em Sinop, não são tragédias isoladas. São mais um alerta de que o sistema continua falhando com as mulheres de Mato Grosso.

Quando duas mulheres são assassinadas em questão de dias pelo simples fato de serem mulheres e isso se soma a mais de cinquenta feminicídios registrados somente em 2025, não estamos falando de episódios pontuais. Estamos diante de um colapso anunciado, em que o Estado não consegue proteger quem mais precisa.

Mato Grosso segue, ano após ano, entre as primeiras posições do ranking nacional de feminicídios. E não é por falta de diagnóstico, pesquisas ou leis. O que falta é ação, comando e prioridade. Manter essa posição não é apenas vergonhoso. É a prova de que há falhas estruturais que não estão sendo enfrentadas.

Esse cenário não acontece por acaso. É resultado de escolhas políticas equivocadas, prioridades mal definidas e ausência de gestão. Enquanto o Estado hesita, agressores avançam e mulheres continuam pagando com a vida.

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Os números deixaram de chocar porque viraram rotina. Naturalizamos o inaceitável. E o que mais precisa acontecer para o governo reconhecer que suas estratégias são insuficientes?

A proteção das mulheres não entra em colapso de uma hora para outra. Ela se deteriora aos poucos, na falta de monitoramento, no descumprimento de medidas protetivas, na ausência de resposta rápida, na falta de integração entre instituições que deveriam atuar juntas. É nesse vazio que o feminicídio prospera.

Se Mato Grosso quiser mudar essa trajetória, precisa agir com a urgência que o tema exige. Isso significa transformar medidas protetivas em instrumentos realmente efetivos, monitorar agressores com tecnologia, garantir resposta policial imediata e tratar como prioridade absoluta a articulação entre Judiciário, segurança, saúde e assistência social.

Outro ponto que não pode mais ser adiado é a transparência. Sem dados consolidados, públicos e atualizados, não existe política séria. Hoje, o Estado trabalha às cegas. Falta um sistema que mostre onde estão os gargalos: quantas medidas são descumpridas, quanto tempo leva uma resposta policial, quantos agressores reincidem. Sem isso, qualquer discurso de compromisso vira apenas retórica.

Os caminhos existem. O que falta é decisão política. Decisão que enfrente resistências, que assuma responsabilidades e que coloque a vida das mulheres no centro das prioridades. Mato Grosso não precisa reinventar nada. Precisa fazer o básico com rigor, coordenação e constância.

Feminicídio não se combate com notas de pesar, mas com políticas permanentes.

A pergunta é direta: até quando o governo vai permitir que mulheres continuem morrendo por omissões que poderiam ser evitadas?

Enquanto essa resposta não vier acompanhada de ações concretas, Mato Grosso permanecerá no topo de um ranking que nenhuma sociedade deveria tolerar. É possível mudar essa história, mas isso exige coragem para reconhecer falhas, firmeza para corrigi-las e determinação para agir todos os dias pela vida das mulheres.

 

*Janaina Riva é bacharel em Direito, procuradora especial da mulher da Assembleia Legislativa e duas vezes a deputada estadual mais votada de Mato Grosso

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ESTRUTURAS VIRAIS

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Considero pouco representativo, ou até mesmo um pouco inexpressivo, dizer-se existir um racismo estrutural. Adjetivar quase que em exclusivo uma única característica de nós próprios, suaviza demais a real dimensão estrutural da nossa sociedade. Entendo que essa adjetivação estrutural deva também ser feita sempre que falamos de impunidade, medo ou do desconhecimento que nos assolam. Procurando não ser interpretado como preconceituoso ou generalista, alego-me a desenvolver o assunto primeiramente na minha pessoa em particular. 

Eu sou estruturalmente racista? Não sei… Talvez nos genes, talvez por ter nascido em África, onde de imediato fui diagnosticado com essa terrível doença. Há vários anos que a combato diariamente aplicando um raciocínio dialético que me tranquiliza, mas que por si só não elimina o aparecimento de sintomas na minha área circundante. Com o seu elevado grau de agressividade a doença causa também em mim um sofrimento crônico com o qual, infelizmente, poderei ter de conviver até o final dos meus dias. 

Eu vivencio impunidade estrutural? Sim, vivencio. Em grande medida por nunca ter sido punido pelos meus progenitores que me educaram, de dentro para fora, em todas as oportunidades que tiveram ou criaram para esse efeito. Não obstante o fervor da impunidade fruto da juventude, a minha subversidade e o meu olhar sobre o alheio permitiu-me não ser excluído do convívio humano que tanto prezo. Hoje, sem o abrigo de qualquer organização, sigo impune igual a muitos outros bem diferentes de mim. 

Eu sofro de desconhecimento estrutural? Claro que sofro. Sofro em virtude de limitações cognitivas, sofro por ausência do chão da sala de aula e também pela imensidão de conteúdos desinteressantíssimos com que o meu espaço/tempo coletivo é sistematicamente desfocado. E suspeito que vá continuar a sofrer por inadaptabilidade congênita, por um ecletismo bem adubado e pelas desastrosas políticas de educação que se concretizam atabalhoadamente na lógica de que o conhecimento é um privilégio. 

Eu tenho medo estrutural? Tenho vários. Um deles é de que há semelhança do que acontece com o trabalho que perde direitos para um empreendedorismo de obrigação, a educação venha também ela a perder direitos para uma expressividade artificial. Outro medo estrutural é que possa não ser mais licito eu aprimorar-me e que dessa forma tenha de me substituir compulsoriamente. Não escondo tratar-se de dois receios recentes que adoraria conseguir repassar a terceiros em virtude deles me instigarem a critica e a liberdade. 

É-me agora mais fácil dizer que a esmagadora maioria dos cidadãos conhece na pele, o quanto nosso corpo ainda nos representa, vestido ou despido, bem como quanto também ainda toleramos escoar as nossas violências através da impunidade. Arrisco-me até a dizer que conseguimos entender que o desconhecimento e o medo caminham juntos desde os primórdios da humanidade e que agora os utilizamos como uma poderosa arma de subjugação. 

Pior que não se trata somente de racismo, impunidade, medo ou desconhecimento. O machismo, a displicência, a economia a que servimos, entre outros aspectos que materializamos num contexto sócio biológico, são todos eles resultado inequívoco de nós mesmos. Produto revelador do vírus autodestrutivo que somos e que se extingue sem exceder a sua singularidade. Esperando agora também não ser interpretado como apocalíptico, entendo oportuno dizer o quanto considero urgente chamar-se os jovens para mais perto de nós. Eles podem ajudar-nos a aliviar o que estamos a fazer para com eles. 

Rui Perdigão – Administrador, Geógrafo, Presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso.
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