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No momento em que uma família recebe a chave, a cidade também recebe uma responsabilidade

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*ARTIGO*

 

Por Scheila Pedroso

A política habitacional não pode ser medida apenas pelo número de casas entregues. Seu verdadeiro impacto depende da capacidade das cidades de planejar o crescimento urbano e garantir infraestrutura, serviços e oportunidades para as famílias que recebem uma nova moradia.

Os números são importantes. Eles ajudam a medir resultados, orientar investimentos e acompanhar a evolução das políticas públicas. Mas quem atua diretamente com habitação sabe que a dimensão mais importante desse trabalho não aparece nas planilhas.

Ao longo da minha trajetória na gestão pública, participei de muitas entregas de moradias. E existe uma cena que sempre me chama a atenção.

A família recebe a chave.

Olha para a casa.

Entra pela primeira vez.

Naquele momento, ninguém está pensando em metragem, cronograma de obra ou indicadores de execução. O que se vê é o alívio de quem deixa para trás anos de insegurança. É a tranquilidade de quem sabe onde os filhos vão dormir no mês seguinte. É a possibilidade de fazer planos que antes pareciam distantes.

Talvez por isso a habitação ocupe um lugar tão importante entre as políticas públicas. Porque ela toca diretamente aquilo que sustenta a vida das pessoas: a segurança, a estabilidade e o sentimento de pertencimento.

Por trás de cada contrato assinado existe uma história.
Existe a mãe que finalmente consegue organizar o orçamento da família.

Existe o trabalhador que deixa de mudar de endereço todos os anos.

Existe o idoso que passa a viver com mais tranquilidade.

Existe a criança que cresce em um ambiente mais estável para estudar, brincar e construir suas referências.

Quando falamos de moradia, estamos falando de dignidade humana.

Mas também estamos falando de um dos maiores desafios para o futuro das cidades brasileiras.

Mesmo com os avanços conquistados nas últimas décadas, o Brasil ainda convive com um déficit habitacional expressivo. Milhões de famílias seguem aguardando a oportunidade de conquistar uma moradia adequada. Ao mesmo tempo, cidades de todas as regiões continuam crescendo, atraindo investimentos, gerando empregos e recebendo novos moradores.

Em Mato Grosso, essa realidade é ainda mais evidente.
Somos um estado em constante transformação. Municípios que se desenvolvem rapidamente precisam responder a demandas cada vez maiores por moradia, infraestrutura e serviços públicos. E é justamente nesse cenário que a discussão sobre habitação precisa ser ampliada.
Defendo que o debate habitacional não se restrinja à construção de unidades. Ele precisa estar integrado ao planejamento urbano.

Ao longo dos anos, aprendi que uma casa nunca chega sozinha.

Ela precisa estar conectada a uma cidade preparada para recebê-la.

Precisa de ruas adequadas.

Precisa de drenagem.

Precisa de iluminação pública.

Precisa de transporte.

Precisa de escola.

Precisa de unidade de saúde.

Precisa de espaços de convivência.

Precisa de oportunidades de trabalho próximo das famílias.

Cada novo bairro incorporado ao tecido urbano exige planejamento, infraestrutura e visão de longo prazo.

A experiência de diversos municípios brasileiros demonstra que a expansão urbana sem planejamento gera consequências que acabam sendo sentidas pela população durante muitos anos. Quando a moradia é implantada distante dos serviços essenciais ou sem infraestrutura adequada, surgem dificuldades relacionadas à mobilidade, ao acesso a oportunidades e à qualidade de vida das famílias.

Por outro lado, quando o crescimento é planejado, a habitação cumpre plenamente sua função social e se transforma em um instrumento efetivo de desenvolvimento urbano.

Por isso, habitação e planejamento urbano caminham juntos.

Investir em moradia produz reflexos em diversas áreas. Contribui para melhores condições de saúde, fortalece vínculos comunitários, amplia a sensação de segurança e cria condições mais favoráveis para o desenvolvimento econômico local.

As cidades que conseguem antecipar seus desafios costumam responder com mais eficiência às demandas que surgem ao longo do tempo. E essa capacidade de antecipação nasce do planejamento.

Planejar significa olhar para frente.

Significa identificar áreas adequadas para expansão urbana.
Significa preparar a infraestrutura antes que os problemas apareçam.

Significa compreender que o crescimento populacional exige decisões tomadas com responsabilidade e visão de futuro.

Essa reflexão se torna cada vez mais necessária para municípios que continuam crescendo e atraindo novos investimentos.

A habitação seguirá sendo um dos grandes desafios das próximas décadas. E continuará sendo uma das ferramentas mais poderosas de transformação social à disposição do poder público.

Porque uma casa oferece proteção.

Mas também oferece estabilidade, perspectivas e oportunidades.

Toda vez que uma família recebe as chaves do seu novo lar, a cidade recebe junto uma responsabilidade. A responsabilidade de garantir que aquele endereço esteja inserido em um ambiente capaz de acolher sonhos, criar oportunidades e permitir que as pessoas construam seu futuro com dignidade.

Por isso, defendo que os programas habitacionais sejam pensados de forma integrada às políticas de desenvolvimento urbano. Entregar uma casa é fundamental. Garantir que ela esteja inserida em uma cidade preparada para acolher essa família é o que transforma uma entrega habitacional em um verdadeiro projeto de desenvolvimento humano e urbano.

É por essa razão que a habitação continuará sendo, para mim, uma das pautas mais humanas e mais estratégicas para o futuro das nossas cidades.

_Scheila Pedroso é arquiteta e urbanista, com trajetória na gestão pública municipal de Sinop nas áreas de habitação, planejamento urbano e desenvolvimento social._

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Valorizar os agentes de saúde é fortalecer o SUS

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Por Katiuscia Manteli

Todos os dias, milhares de profissionais percorrem ruas, visitam residências e orientam famílias em cada canto do país. Eles acompanham gestantes, auxiliam idosos e ajudam a prevenir doenças antes mesmo que elas cheguem aos hospitais. Muitas vezes, esse trabalho essencial acontece longe dos grandes holofotes da mídia, mas seu impacto real é sentido diretamente no coração de cada comunidade atendida.

Estamos falando dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e dos Agentes de Combate às Endemias (ACE), que representam o principal elo entre a população e o Sistema Único de Saúde (SUS). Eles são, na verdade, os verdadeiros olhos e ouvidos da saúde pública nos locais onde o Estado muitas vezes custa a chegar, desempenhando um papel social que vai muito além da medicina tradicional.

A recente aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 14/2021 pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado trouxe novamente para o centro do debate nacional a urgência de reconhecer essa categoria. Afinal, esses trabalhadores conhecem a realidade dos bairros como poucos e, em muitas regiões vulneráveis, representam o primeiro ou até mesmo o único contato do cidadão com a rede pública de atendimento.

A proposta prevê uma aposentadoria diferenciada para a classe, além de ampliar de forma significativa os mecanismos de proteção social. Trata-se de um direito legítimo para uma atividade que exige extrema dedicação, esforço físico diário sob sol e chuva, e um forte envolvimento humano e psicológico com as dores e carências da comunidade.

A pandemia da Covid-19 evidenciou ainda mais essa grande importância. Enquanto o mundo se isolava em busca de proteção, essas equipes continuaram atuando firmes na linha de frente, orientando famílias e auxiliando o poder público a enfrentar uma das maiores crises sanitárias da história recente. Por isso, a busca por melhores condições de trabalho e de previdência ganha tanta força no Congresso Nacional. Valorizar esse braço do SUS significa, na prática, fortalecer a atenção básica e o cuidado preventivo.

Além da PEC 14/2021, outra pauta de extrema relevância para a categoria é o Projeto de Lei 460/2019, que busca garantir o pagamento direto do Incentivo Financeiro Adicional (IFA) aos trabalhadores. A proposta assegura que esse recurso federal seja destinado exclusivamente aos profissionais, combatendo distorções locais e reforçando o reconhecimento de uma categoria fundamental para a promoção da saúde pública e para o fortalecimento do SUS.

Essa valorização também exige planejamento e responsabilidade na construção das políticas públicas. O fortalecimento da carreira precisa caminhar ao lado de um modelo de financiamento sustentável, com a participação tripartite da União, dos estados e dos municípios, para que os avanços conquistados sejam duradouros e beneficiem tanto os trabalhadores quanto a população atendida. A saúde pública brasileira precisa de servidores motivados e protegidos, mas também carece de previsibilidade e equilíbrio orçamentário para continuar operando com a máxima qualidade.

A PEC 14/2021 e o PL 460/2019 ampliam um debate que vai muito além de questões previdenciárias e remuneratórias. Eles colocam em pauta o reconhecimento de profissionais que estão diariamente nas comunidades, cuidando das pessoas e ajudando a prevenir problemas que, de outra forma, poderiam sobrecarregar e colapsar todo o sistema de saúde.

Valorizar quem cuida da nossa população não é apenas uma escolha política, é uma obrigação social. Garantir condições justas de trabalho, reconhecimento profissional e segurança jurídica e previdenciária para o exercício de suas funções significa investir diretamente em uma saúde pública mais eficiente, humana e próxima de quem mais precisa.

Katiuscia Manteli é jornalista e vereadora em Cuiabá (Podemos).

 

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