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Entre o discurso e a prática, o desafio da coerência na política de gênero

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A violência política de gênero é uma realidade que precisa ser enfrentada com seriedade. Mulheres em posições de poder ainda são alvo de ataques que ultrapassam o campo das ideias e atingem sua condição de gênero. Esse é um problema estrutural, que exige posicionamento firme e, acima de tudo, coerência.

Em Várzea Grande, o tema voltou ao centro do debate após a prefeita Flávia Moretti afirmar ser vítima desse tipo de violência. A denúncia é legítima e merece atenção, como qualquer outra. No entanto, o cenário ganha contornos mais complexos quando surgem episódios que colocam em dúvida a uniformidade desse discurso.

O caso envolvendo a vereadora Gisa Barros evidencia essa contradição. Ao relatar ter sido impedida de ocupar espaço em um evento institucional, a parlamentar levantou uma questão incômoda, mas necessária: é possível combater a violência política de gênero enquanto se reproduz, ainda que de forma indireta, práticas que excluem ou diminuem outras mulheres?

A resposta, do ponto de vista ético, é simples: não. A luta contra qualquer forma de violência não pode ser seletiva. Quando o discurso é utilizado conforme a conveniência política, ele perde força e, pior, descredibiliza uma pauta que já enfrenta resistência histórica.

É preciso separar o embate político, que é natural e saudável, de atitudes que carregam traços de desigualdade. Divergir faz parte da democracia. Excluir, constranger ou deslegitimar pela condição de gênero não.

O que se vê, neste momento, é um alerta claro sobre os riscos da incoerência. Quando figuras públicas assumem o papel de denunciar injustiças, elas também assumem a responsabilidade de não reproduzi-las. Caso contrário, o discurso se transforma em retórica vazia.

A sociedade observa. E mais do que discursos bem construídos, cobra atitudes. A coerência, nesse contexto, não é apenas uma virtude, é uma exigência.

Se a violência política de gênero deve ser combatida, que seja de forma ampla, irrestrita e sem distinção de lado. Porque, quando a régua muda conforme o interesse, quem perde não é apenas a credibilidade de quem fala, mas toda uma causa que precisa, mais do que nunca, de ser levada a sério.

Daniel Costa
Jornalista e graduado em Gestão Pública

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Quando perder músculo também ameaça o cérebro

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Durante muito tempo, falar em obesidade significava olhar apenas para o peso e para o IMC. Hoje sabemos que isso é insuficiente.

Duas pessoas com o mesmo peso podem ter condições completamente diferentes. Uma pode apresentar boa massa muscular e força preservada. A outra pode acumular gordura, especialmente abdominal, enquanto perde músculo e capacidade funcional.

Essa combinação é chamada de obesidade sarcopênica.

Ela reúne dois problemas importantes: excesso de gordura corporal e redução da massa ou da força muscular. Além de aumentar o risco de fragilidade, quedas, diabetes e doenças cardiovasculares, novas evidências mostram que essa condição também pode estar associada a maior risco de demência.

O que a ciência mostra :

 

Um grande estudo publicado na revista Clinical Nutrition avaliou dados de centenas de milhares de pessoas e analisou a relação entre composição corporal, força muscular e desenvolvimento de demência.

Os resultados mostraram que tanto a sarcopenia isolada quanto a obesidade sarcopênica estavam associadas a um risco maior de declínio cognitivo. Um dos achados mais relevantes foi a importância da força de preensão manual, medida por dinamometria.

Quanto menor a força e quanto maior sua redução ao longo dos anos ,maior foi o risco observado.

Isso reforça uma mudança importante na forma de avaliar a saúde: Não basta saber quanto peso uma pessoa perdeu. Precisamos saber quanto músculo e quanta força ela conseguiu preservar.

Emagrecer , nem sempre significa melhorar a saúde ?

 

Uma perda de peso mal conduzida pode incluir perda significativa de massa muscular, principalmente em pessoas mais velhas, sedentárias, submetidas a dietas muito restritivas ou a tratamentos sem acompanhamento adequado.

Mesmo com o avanço dos medicamentos para obesidade, o objetivo não deve ser apenas reduzir o número na balança. O tratamento precisa preservar músculo, reduzir gordura visceral, melhorar o metabolismo e manter a autonomia.

O paciente não deve apenas ficar mais leve. Deve ficar mais saudável, mais forte e funcionalmente mais capaz.

Por que o músculo influencia a saúde cerebral?

A relação entre músculo e cérebro é complexa, mas alguns mecanismos ajudam a explicá-la.

A perda muscular pode piorar a resistência à insulina, reduzir o gasto energético, aumentar o sedentarismo e favorecer inflamação crônica. Ao mesmo tempo, fatores como hipertensão, diabetes, apneia do sono e colesterol elevado afetam os vasos sanguíneos que irrigam tanto o coração quanto o cérebro.

Por isso, preservar músculo é muito mais do que uma questão estética. É uma estratégia de proteção metabólica, cardiovascular, funcional e possivelmente cognitiva.

Como enfrentar cientificamente esse problema ?

 

O primeiro passo é avaliar mais do que o peso. Circunferência abdominal, composição corporal, força de preensão, velocidade da marcha, capacidade funcional e exames cardiometabólicos ajudam a identificar riscos que o IMC isolado não mostra.

O treinamento de força deve ocupar posição central. Caminhar é importante, mas pode não ser suficiente para preservar ou recuperar massa muscular. Exercícios resistidos, progressivos e individualizados são fundamentais.

A alimentação também precisa garantir quantidade adequada de proteínas e energia, distribuídas ao longo do dia e ajustadas à idade, função renal, rotina e condição clínica.

Além disso, é essencial tratar fatores que aceleram a perda muscular e o envelhecimento vascular, como sedentarismo, diabetes, hipertensão, alterações do sono, tabagismo e obesidade visceral.

Envelhecer bem ,exige preservar força

A obesidade sarcopênica mostra por que o cuidado não pode ser fragmentado. Peso, metabolismo, coração, músculo e cérebro fazem parte do mesmo sistema.

Entendemos que o acompanhamento precisa ir além da balança. Avaliamos composição corporal, força, risco cardiovascular, alimentação, sono, rotina e capacidade funcional para construir estratégias verdadeiramente individualizadas.

Porque o objetivo não é apenas perder peso. É preservar autonomia, proteger o cérebro, fortalecer o corpo e construir saúde antes que a doença se manifeste.

 

Saúde não é sorte. É rotina.

Dr. Max Wagner de LimaCardiologista — CRM 6194 | RQE 2308
Prevenção cardiovascular, cardiometabolismo e medicina de antecipação.

Maristela Luft — CRN -16431Nutricionista e Mestre em nutrição clínica, composição corporal e cuidado cardiometabólico.

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