Opinião
Como a automação sustenta a liderança de Mato Grosso na produção de algodão
Opinião
Por: Bruno de Ávila
Mato Grosso lidera a produção de algodão no Brasil por um motivo que vai além de clima, solo e escala. A base dessa liderança é a capacidade de operar uma cadeia produtiva grande com padronização, previsibilidade e controle, do início ao fim. Na safra 2024/2025, apenas em fibra, o estado produziu 2,87 milhões de toneladas, volume que representou 71% da produção nacional, segundo dados divulgados pelo governo estadual com base em números da Conab. No mesmo ciclo, a Conab estimou a produção brasileira de fibra em 4,1 milhões de toneladas.
Quando se fala em tecnologia no algodão, é comum limitar a conversa ao campo. Isso faz sentido: hoje já é rotina usar máquinas modernas, orientação por satélite e monitoramento para reduzir erros e aumentar produtividade. O retorno aparece rápido e o produtor vê valor de forma direta. Mas o diferencial mais difícil de copiar não está só no que acontece na lavoura. Ele aparece quando o volume produzido encontra uma estrutura industrial capaz de receber, processar e entregar com estabilidade, qualidade e custo controlado. É dentro das plantas industriais – especialmente nas algodoeiras – que a automação deixa de ser “opção moderna” e vira infraestrutura.
A cadeia começa antes do plantio, na semente. Quando a preparação é bem controlada – separação, tratamento e verificação de qualidade , a variabilidade já cai no ponto de partida. Isso reduz desperdícios e falhas adiante, melhora a uniformidade e aumenta a previsibilidade do ciclo. O efeito prático é simples: quanto mais consistente o começo, mais previsível o final.
O ponto decisivo, e mais desafiador, está nas unidades que processam o algodão depois da colheita. Ali, o beneficiamento é uma sequência de etapas conectadas que precisam funcionar em ritmo constante: recepção, limpeza, separação, prensagem, classificação, enfardamento e expedição. Quando uma etapa perde estabilidade, a cadeia inteira sente: aumentam paradas, perdas, retrabalho, risco e custo. Nesse ambiente, automação significa algo muito objetivo: fazer todas as partes trabalharem de forma coordenada, com regras claras de segurança, diagnóstico rápido de falhas e registro confiável do que aconteceu. Em vez de “máquinas isoladas”, a fábrica passa a operar como um sistema único, onde os equipamentos se comunicam, seguem lógicas consistentes e entregam dados que ajudam a operação e a gestão a tomarem decisões melhores.
A resistência à automação na agroindústria, quando existe, raramente é falta de visão. Quase sempre é prudência diante da complexidade percebida. Dentro da indústria, as melhorias não aparecem como um equipamento novo no pátio, elas aparecem na eficiência do conjunto: menos tempo parado, menos desperdício, mais regularidade do produto final, mais segurança para pessoas e equipamentos e mais controle sobre o que foi produzido, quando foi produzido e em quais condições. É ganho real, mas ele se revela na operação como um todo, não em um único ponto.
No fim, a liderança de Mato Grosso se sustenta porque a cadeia inteira opera como sistema. O estado não ganha apenas por produzir mais; ganha por transformar volume em competitividade: processar muito, com padrão, previsibilidade e qualidade sustentada. O futuro do algodão continua no campo, mas a vantagem mais sólida se consolida cada vez mais dentro das plantas industriais. Quem entende isso primeiro, lidera.
Bruno de Ávila é especialista em Automação Industrial e inovação aplicada ao agronegócio.
Opinião
Biocombustíveis: o Antídoto Brasileiro frente à Crise Energética Global
A história mostra que grandes crises energéticas costumam abrir caminhos para mudanças estruturais. Foi assim na década de 1970, quando o Brasil, pressionado pelo choque do petróleo, criou o Pró-Álcool e deu início a uma das cadeias produtivas mais eficientes do mundo. Agora, diante das incertezas no tabuleiro geopolítico e de uma nova escalada global dos combustíveis fósseis, o Brasil se encontra em uma posição singular, com a oportunidade de ampliar, avançar e consolidar uma maior participação dos biocombustíveis na matriz energética nacional.
O mundo vive um cenário de instabilidade energética. Enquanto os tambores de guerra ecoam no Oriente Médio e as tensões escalam em regiões vitais para o suprimento de energia, o preço do barril de petróleo voltou a assombrar as economias globais, superando os US$ 100, impulsionado pelo risco de interrupções no fornecimento global. Isso impacta diretamente o custo do diesel, do transporte, dos fertilizantes e, consequentemente, de toda a cadeia produtiva.
No Brasil, esse efeito já é sentido no campo. O diesel mais caro pressiona o frete, encarece a produção, diminui a margem e reduz a competitividade. Mas, ao contrário de muitos países, temos uma vantagem estratégica clara, que ameniza estes impactos e pode ganhar muito mais protagonismo, passando a ser um verdadeiro triunfo contra a volatilidade do mercado internacional: os biocombustíveis.
Esse não é um ativo trivial. É, hoje, um diferencial competitivo e um escudo econômico.
O Brasil construiu, ao longo de décadas, com visão e persistência, a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo. Dispomos de matéria prima abundante, integração da cadeia produtiva, alta tecnologia de processamento e capacidade de escala como poucos países, sendo ambientalmente mais responsáveis, despontando ainda na vanguarda da descarbonização.
O etanol e o biodiesel, por exemplo, deixaram de ser apostas para se tornarem pilares da matriz energética nacional, com misturas obrigatórias entre as mais significativas do planeta. Além disso, a maior parte da frota nacional está preparada para utilizar diferentes combinações de combustíveis, o que dá flexibilidade ao sistema. Contudo, precisamos avançar muito mais para não sermos vítimas da subutilização do nosso potencial.
Mato Grosso é um exemplo claro disso. O estado é líder na produção de grãos e maior produtor de etanol de milho do País. Para se ter uma ideia, na produção total de etanol, saímos de 2,44 bilhões de litros na safra 19/20 – com equilíbrio de produção de etanol de cana de açúcar e de milho e devemos alcançar na safra 26/27, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) cerca de 8,44 bilhões de litros, sendo 86% desse montante oriundo da produção de etanol de milho, o que representa um aumento exponencial de 500% somente deste produto, no período. Nesse ínterim, o estado também praticamente dobrou sua produção de biodiesel, alcançando um recorde de 2,30 bilhões de litros em 2025, consolidando-se como segundo maior produtor do Brasil. Ou seja, temos matéria-prima, escala e tecnologia para ampliar ainda mais nossa participação na matriz energética nacional. O que falta, portanto, não é capacidade produtiva, mas decisão política.
Nesse contexto, a necessidade da ampliação agora da mistura de biodiesel ao diesel para 20% – o chamado B20 e do etanol na gasolina para 35% (E35), deixa de ser apenas uma agenda setorial e passa a ser uma decisão estratégica de Estado. Elevar a mistura de biocombustíveis aos combustíveis fósseis é uma medida concreta, de impacto imediato. Isso reduz a dependência de combustíveis fósseis importados, protege a economia das oscilações internacionais e ainda fortalece a cadeia produtiva nacional, gerando emprego e renda, atraindo investimentos e promovendo o desenvolvimento regional.
Diante de um cenário internacional marcado por incertezas, o Brasil não pode hesitar. Ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz energética não é apenas desejável — é necessário. Sem contar que neste momento, por exemplo, o preço do óleo diesel A S10 importado está em R$ 6,40/litro, valor mais alto que o biodiesel, comercializado a R$ 5,15/litro, segundo dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o que reafirma mais um benefício direto, com redução do valor final para o consumidor. Ou seja, precisamos fazer escolhas que fortaleçam a produção interna, reduzam as nossas vulnerabilidades, protejam o consumidor e reafirmem a autonomia do país em um mundo cada vez mais volátil.
Se há uma lição a ser tirada da atual crise energética global é que: depender excessivamente de fontes externas e concentradas de energia é um risco estratégico.
Nosso país é um gigante energético que ainda não despertou completamente para o seu próprio potencial. Temos todas as condições de estabelecer alternativas reais ao petróleo, com competitividade de mercado e produção 100% nacional. O que falta é transformar isso em política de Estado, com previsibilidade e regulamentação, que garantam segurança aos investimentos para ampliação da capacidade produtiva com confiança e estabilidade.
O futuro da energia está sendo disputado agora. E, graças à sua trajetória, o Brasil já saiu na frente nesta competição. Temos o remédio nas mãos. Temos biocombustíveis. É hora de usar essa vantagem estratégica para proteger nossa economia e mostrar que o futuro, além de verde, é produzido em solo brasileiro!
• Por: Cidinho Santos, ex-senador por MT, empresário do agronegócio e CEO do Grupo MC Empreendimentos e Participações
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