Opinião
20/11: Dia da Consciência (limpa) Negra do socioambiental
Opinião
“Festa branca com gente esquisita”. Foi assim que eu descrevi como me sentia a um colega jornalista (também preto) em umas das dezenas de agendas da COP-30, em Belém (PA) essa semana. Fui para lá a trabalho, pelo Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso (Formad), rede de organizações da sociedade civil do meu estado, que levanta e representa uma diversidade de bandeiras de luta e frentes de atuação. Em poucas delas, as discussões são racializadas ou protagonizadas por pessoas pretas. Essa, aliás, é uma verdade que confesso que relutei em reconhecer, mas é, a cada dia, impossível não enxergar.
Até mesmo nas bolhas do campo socioambiental – composta em sua maioria por pessoas brancas e currículos cheios de siglas internacionais que muitos, inclusive, adoram expor antes mesmo de dar um “bom dia”-, o racismo não está do lado de lá. Ele está bem aqui. Ao meu lado, na minha organização, de parceiros, de financiadores, de estudiosos, de militantes, de pessoas com formação acadêmica ou não.
E é irônico pensar que, no Dia da Consciência Negra, essas mesmas organizações, instituições e porta-vozes, publicarão uma série de conteúdos sobre a importância da data, combate ao racismo, dar voz e oportunidade a pessoas pretas, “abrace um negro hoje”, quando na prática, isso está a quilômetros de distância. Tal qual a milionária zona azul da COP-30 (patrocinada por empresas como a JBS, Braskem, Vale e outras condenadas por crimes ambientais) e as empobrecidas comunidades tradicionais e quilombos da região de Belém que, só um adendo: tiveram representantes e lideranças coagidas pelo poder policial ao tentar chegar a uma atividade da Cúpula dos Povos. A violência com o que povo negro é tratado diariamente já é tão naturalizada que isso passou longe de merecer destaque ou manchete de jornal, qualquer que seja.
Pelos corredores da COP-30, salvo as equipes de limpeza e segurança, poderia contar nas mãos (e dependendo do tema, em uma só) quantas pessoas pretas tomaram os microfones. E isso é válido para as delegações oficiais de governos, equipes de logística e comunicação, entidades da sociedade civil organizada e diversos grupos presentes na Conferência. Com uma credencial no pescoço, notei olhares desconfiados de que eu poderia ou deveria estar ali mesmo. Quando me arrisquei a traduzir algumas falas para dois norte-americanos numa sala, vi o descrédito e desdém. E isso tudo em ambientes que se vangloriam de defender direitos humanos, igualdade e justiça ambiental.
Uma correção: os espaços com a maior concentração de pessoas pretas eram os pavilhões dos países africanos. Coincidentemente, os locais menos visitados. Que engraçado, não? Tive sorte em estar no estande da Angola, em um evento de celebração pelos 50 anos de independência do país que, assim como nós, também foi colonizado por Portugal e hoje comemora a sua libertação, ainda que sofra impactos econômicos e sociais da subsequente guerra civil e instabilidade política. O país tem no petróleo cerca de 90% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Lembrando que estamos falando de um estande oficial na COP-30, logo, a proteção e defesa de recursos naturais jamais seria a prioridade.
Retomando a reflexão inicial (racial) desse texto… Sabe o motivo pelo qual o racismo não tem prazo de validade para acabar no campo socioambiental? Porque é conveniente para a branquitude limpar a sua consciência na defesa de pautas sociais. É a síndrome do “branco salvador”, de que, graças a vocês, avançamos com as nossas conquistas. Até porque, sem vocês, não somos ouvidos, nossas reivindicações não são traduzidas, nossos apelos não são ignorados. Obrigada, branquitude! Vocês fazem tudo por nós, mesmo sem nós! PS: nem entrarei no recorte de classe, gênero e sexualidade dessa reflexão, porque aí iríamos longe e é feriado…
Então hoje, no Dia da Consciência Negra, deixo com vocês. Compartilhem posts, repostem vídeos do Malcom X, da Angela Davis, do Zumbi dos Palmares, divulguem perfis de coletivos negros, usem camisetas bonitas e instagramáveis com frases de impacto e levantem o punho esquerdo quando alguém soltar um “fogo nos racistas!”. Façam tudo para limpar a consciência de vocês. Aproveitem o feriado. Amanhã, é outro dia. É sexta! Você já pode pensar que a moça negra em pé no bar é a garçonete. E com o seu bonezinho do MST e um colar comprado em alguma feira indígena, você pode pedir a sua cerveja em paz. A sua parte você fez, não é mesmo?
*Bruna Pinheiro, é jornalista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), integrante e comunicadora da secretaria executiva do Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso (Formad).
Opinião
Quando perder músculo também ameaça o cérebro
Durante muito tempo, falar em obesidade significava olhar apenas para o peso e para o IMC. Hoje sabemos que isso é insuficiente.
Duas pessoas com o mesmo peso podem ter condições completamente diferentes. Uma pode apresentar boa massa muscular e força preservada. A outra pode acumular gordura, especialmente abdominal, enquanto perde músculo e capacidade funcional.
Essa combinação é chamada de obesidade sarcopênica.
Ela reúne dois problemas importantes: excesso de gordura corporal e redução da massa ou da força muscular. Além de aumentar o risco de fragilidade, quedas, diabetes e doenças cardiovasculares, novas evidências mostram que essa condição também pode estar associada a maior risco de demência.
O que a ciência mostra :
Um grande estudo publicado na revista Clinical Nutrition avaliou dados de centenas de milhares de pessoas e analisou a relação entre composição corporal, força muscular e desenvolvimento de demência.
Os resultados mostraram que tanto a sarcopenia isolada quanto a obesidade sarcopênica estavam associadas a um risco maior de declínio cognitivo. Um dos achados mais relevantes foi a importância da força de preensão manual, medida por dinamometria.
Quanto menor a força e quanto maior sua redução ao longo dos anos ,maior foi o risco observado.
Isso reforça uma mudança importante na forma de avaliar a saúde: Não basta saber quanto peso uma pessoa perdeu. Precisamos saber quanto músculo e quanta força ela conseguiu preservar.
Emagrecer , nem sempre significa melhorar a saúde ?
Uma perda de peso mal conduzida pode incluir perda significativa de massa muscular, principalmente em pessoas mais velhas, sedentárias, submetidas a dietas muito restritivas ou a tratamentos sem acompanhamento adequado.
Mesmo com o avanço dos medicamentos para obesidade, o objetivo não deve ser apenas reduzir o número na balança. O tratamento precisa preservar músculo, reduzir gordura visceral, melhorar o metabolismo e manter a autonomia.
O paciente não deve apenas ficar mais leve. Deve ficar mais saudável, mais forte e funcionalmente mais capaz.
Por que o músculo influencia a saúde cerebral?
A relação entre músculo e cérebro é complexa, mas alguns mecanismos ajudam a explicá-la.
A perda muscular pode piorar a resistência à insulina, reduzir o gasto energético, aumentar o sedentarismo e favorecer inflamação crônica. Ao mesmo tempo, fatores como hipertensão, diabetes, apneia do sono e colesterol elevado afetam os vasos sanguíneos que irrigam tanto o coração quanto o cérebro.
Por isso, preservar músculo é muito mais do que uma questão estética. É uma estratégia de proteção metabólica, cardiovascular, funcional e possivelmente cognitiva.
Como enfrentar cientificamente esse problema ?
O primeiro passo é avaliar mais do que o peso. Circunferência abdominal, composição corporal, força de preensão, velocidade da marcha, capacidade funcional e exames cardiometabólicos ajudam a identificar riscos que o IMC isolado não mostra.
O treinamento de força deve ocupar posição central. Caminhar é importante, mas pode não ser suficiente para preservar ou recuperar massa muscular. Exercícios resistidos, progressivos e individualizados são fundamentais.
A alimentação também precisa garantir quantidade adequada de proteínas e energia, distribuídas ao longo do dia e ajustadas à idade, função renal, rotina e condição clínica.
Além disso, é essencial tratar fatores que aceleram a perda muscular e o envelhecimento vascular, como sedentarismo, diabetes, hipertensão, alterações do sono, tabagismo e obesidade visceral.
Envelhecer bem ,exige preservar força
A obesidade sarcopênica mostra por que o cuidado não pode ser fragmentado. Peso, metabolismo, coração, músculo e cérebro fazem parte do mesmo sistema.
Entendemos que o acompanhamento precisa ir além da balança. Avaliamos composição corporal, força, risco cardiovascular, alimentação, sono, rotina e capacidade funcional para construir estratégias verdadeiramente individualizadas.
Porque o objetivo não é apenas perder peso. É preservar autonomia, proteger o cérebro, fortalecer o corpo e construir saúde antes que a doença se manifeste.
Saúde não é sorte. É rotina.
Dr. Max Wagner de LimaCardiologista — CRM 6194 | RQE 2308 Prevenção cardiovascular, cardiometabolismo e medicina de antecipação.
Maristela Luft — CRN -16431Nutricionista e Mestre em nutrição clínica, composição corporal e cuidado cardiometabólico.
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